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28 de julho de 2015

O fim do Arco

O Arco, startup de tecnologia, comunicou o encerramento de suas atividades hoje e causou comoção nas redes sociais. “Em linhas gerais, vamos fechar porque o dinheiro acabou. Como muitas startups, precisávamos de um investimento que nunca veio para escalar o negócio. Infelizmente não conseguimos convencer ninguém de que investir em social commerce é olhar pro futuro, mas acho que fomos bem longe sozinhos”, escreveu Diana Assennato, uma das sócias da empresa, em seu perfil do Medium.

A ferramenta criada por Diana e seus sócios possibilitava a compra através do Instagram, interligando o perfil na plataforma à conta de PayPal do usuário. A transação ocorria de maneira rápida, eficiente e segura. A Confeitaria teve a oportunidade de testar o serviço e tivemos um bom resultado: em fevereiro de 2014, vendemos as primeiras cópias numeradas do livro Amor; Pequenas Estórias exclusivamente pelo Instagram, através do Arco.

Em 2013, o projeto recebeu o prêmio de Melhor Startup pela INFO na categoria 8 Bit, porém não sobreviveu a um mercado conservador, que persegue a inovação como uma utopia, mas raramente faz apostas mais ousadas.

Abaixo, Diana escreve um relato honesto sobre o encerramento da empresa e os obstáculos para os empreendedores brasileiros focados em inovação:

POR QUE VAMOS FECHAR O ARCO

“É estranho ter orgulho de fechar uma empresa e sei que parece demagogo, mas “não dar certo” foi uma experiência enriquecedora. Antes de explicar o porquê, quero deixar claro que este é um ponto de vista pessoal (não falo em nome de todos os meus sócios). Também quero agradecer a paciência de quem entendeu, de coração, o conceito “Beta”. De uns meses para cá tivemos que deixar a operação enxuta, então sabemos que muitos usuários aguentaram firme esta reduzida de marcha. Obrigada. Mesmo. Eu uso muitos serviços digitais e sei o quanto a gente espera que uma ferramenta seja impecável, rápida, bonita e surpreendente o tempo todo. Acontece que por trás de cada linha de código existe um universo muito maior e mais complexo do que eu imaginava: pessoas e a sua própria relação com a tecnologia. Programadores, usuários, fundadores, investidores, entusiastas ou críticos: nada mais difícil do que alinhar expectativas a respeito do que uma tecnologia pode/deve ou não fazer.

A palavra ‘inovação’ está sempre na boca do brasileiro. Empresas precisam inovar, pessoas precisam inovar, as relações precisam inovar e tudo precisa sair da caixa pra ontem. O que ninguém entende é que não dá pra pular na piscina sem molhar o cabelo. Até o último fio. Tem que correr risco, tem que duvidar, tem que pular do precipício dando mortal de olho aberto. Isso se aplica ao empreendedor, mas também à marca, empresa, agência e principalmente investidor que quer ver o seu nome atrelado a um projeto ousado, mas que não tem coragem de pagar para ver. Literalmente.

Sim, acho que fomos perigosamente otimistas. O Paul Graham, um cara que me ensinou muito sobre startups, diz uma coisa ótima a respeito: ‘Você deve tratar o seu otimismo do mesmo jeito que se trata o centro de um reator nuclear: como uma fonte poderosa de energia que é também muito perigosa. Você tem que construir um escudo ao redor dele, ou então ele te frita’.

Mas sem otimismo não dá pra fazer. Não dá nem pra pensar em começar, então talvez tenha sido uma questão de dosagem. Também acho que menosprezamos a complexidade (em todos os sentidos) dos processos de investimento e venda de uma startup. Contamos com vários acordos apalavrados com pessoas, fundos de investimento, agências de publicidade e empresas, todos apaixonados por inovação e apavorados pelo risco. Passamos por infinitas rodadas de aprovação com um gigante do mercado interessado em comprar tudo, chegamos a destampar a caneta para assinar papéis com uma outra galera, mas em algum momento vinha a pergunta (quase nunca neste formato): ‘quando é que o meu dinheiro volta?’. Nos preparamos muito para essa resposta e é claro que tínhamos as nossas projeções, mas se tem uma coisa que eu aprendi nestes anos é que na hora de botar a mão no bolso a inovação é o item menos valioso. Vi muita startup esculpindo números em gráficos lindos e planilhas absolutamente subjetivas. Como se projeta a escalada de um serviço inovador, que nasce com a premissa de formar público? Como desenhar um modelo de negócio eficaz sem ter a liberdade de experimentar e testar as opções que a ferramenta oferece? Está mentindo todo e qualquer empreendedor que consegue medir inovação com réguas antigas. Dá pra projetar, imaginar, inferir… mas saber de fato quando volta o dinheiro é bem difícil.

Mesmo assim: como foi legal ver o bichinho crescer por nossa conta e risco. Esses dias lembrei que, antes de lançar, ficamos imaginando quanto tempo demoraria pra aparecer o primeiro “comprar” orgânico (que não os das nossas famílias e amigos orgulhosos). Uma semana, dez dias, eu chutei. Um dia depois já tinha um doido copiando o comentário de um comprador-amigo só pra ver o que acontecia. 1 dia.

Esse é o brasileiro na internet: social, curioso e destemido.

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Foram quase vinte mil os empolgados que interagiram com a gente de alguma forma (clientes, fãs, seguidores) durante estes anos. Pessoas que acharam a nossa ideia boa e nos deram espaço para explicar como funcionava essa ferramenta estranha que nunca ninguém tinha ouvido falar. Alguns podem pensar: ‘vinte mil? pff… Vão comer arroz e feijão, galera.’, mas a minha leitura é diferente. Ajudamos VINTE MIL pessoas a entender o valor do social commerce e a forma como a tecnologia pode mudar a relação delas com micro, pequenas, médias e grandes marcas na Internet. Ajudamos micro e pequenas marcas a entender o potencial da rede que já está ao seu redor e a relativizar essa ânsia cada vez maior por likes e seguidores. Para mim, essa é a grande prova de que o Arco deu certo.

O Arco ajudou a vender desde sabonetes decorados de uma senhorinha fofa do Nordeste até câmeras fotográficas Leica, numa campanha global no Instagram. Criamos uma rede, colocamos micro-produtores em contato, ajudamos artistas, criamos público, ampliamos boas mensagens, apresentamos concorrentes (e multiplicamos seus mercados), divulgamos trabalhos que escolhíamos a dedo e sobrevivemos dois anos sem vender um post sequer no nosso perfil.

Onde acertamos? Dentro das possibilidades, fizemos tudo o que deu vontade. Inventamos o Arco Social (uma adaptação da nossa ferramenta para ONGs e instituições sociais. Não tínhamos nenhum lucro nessas transações), o Arco Stats, criamos um sistema para ativação de hashtags, convencemos as nossas marcas brasileiras preferidas a venderem no Instagram e criamos campanhas lindas de vídeos com o Luis, a Valentina, o Edu, a Camilla e o Ian (obrigada Taci < 3). Sem falsa modéstia? Eu sei que fizemos muitos queixos caírem, mas hoje eu vejo que ideias milionárias são as mais miseráveis. O importante é permear o contexto, e isso nem sempre depende de uma ideia sexy.

De qualquer forma: conversamos de igual para igual com os gigantes, ouvimos (e aprendemos muito) dos pequenos, batemos na porta de quem nos deu vontade e sentamos na mesma mesa dos 50 profissionais mais inovadores do Brasil. Faltou grana, paciência, confiança e resiliência, mas não dá pra dizer que foi qualquer coisa menos do que incrível.

Obrigada Arthur/Jurema, Camilla e Luciana por esse debut corajoso. Aprendi muito com vocês.

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail Better’. (S. Beckett)”

* * *

Continue acompanhando o trabalho de Diana em outras duas iniciativas das quais é sócia: o Ada e a Cobalto.

* Imagem: (1) Ilustração atribuída a Banksy em muro de Vancouver, no Canadá; (2) Diana e seus sócios Camilla Barella, Luciana Obniski e Arthur Lima, da esquerda para direita. Foto de Werther Santana para o Estadão.

Confeitaria
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