Textos

02 de julho de 2015

Ilustração:
Ale Kalko

A Equilibrista e o Cuspidor de Fogo

Quando ele a viu atravessando a Brasil com a Rebouças, quase engoliu o querosene. Ela se equilibrava entre um turno e outro. Saía mais cedo do primeiro emprego para chegar tarde no segundo.

Tudo aconteceu numa terça-feira. Ela se distraiu e percebeu que ele existia. Ele cuspia o coração pela boca. Os olhares se cruzaram. Ele sentiu uma fagulha subindo do peito pela garganta. O suficiente pra incendiar o líquido entre os dentes. Virou cinzas na hora.

Ela achou todo o espetáculo muito bonito. Abriu a carteira. Não tinha outra nota menor e deixou dez reais no chapéu que repousava na calçada. Chegou mais atrasada que o normal; foi demitida. Outro emprego apareceu no Tatuapé. Nunca mais passou por ali.

Às vezes ela pensa que se tivesse mais dinheiro, teria deixado uns vinte reais para o moço do fogo no sinal. O moço do farol nunca mais foi o mesmo. Agora fuligem, em dias de tempestade precisa se esforçar muito para não sair ventando por aí.

Ale Kalko
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