Textos

20 de julho de 2015

Ilustração:
Ale Kalko

Tanto tanto e nada

Seu amor é bonito demais pra mim; não dou conta, meu bem. Dizem que é só com coisa ruim que a gente se acostuma. Que quando se está no meio do lixão, uma hora não se sente mais o cheiro.

Esses dias passei na frente do Araçá e me comovi com todas as flores, todas tão vivas mesmo tão mortas. Quis levar uma por uma pra casa. Lembrei de você e do seu amor tão bonito quanto elas. Me deu saudade. Me deu pena. Tanto quis um amor assim que eu recusei. Quase desci do ônibus e passei todas elas no cartão querendo levar você. Encheria a sala de lírios e o meu quarto e a cozinha e o quartinho dos fundos onde eu guardo os sapatos. Não teria vaso pra esse amor todo. Usaria os potes de margarina e tupperwares sem tampa. Tanto amor, tão bonito.

Acordaria no meio da noite sufocada com o perfume sólido preenchendo todos os buracos da fechadura. Não faria nada. Janelas fechadas, assistiria às cores desbotando e amarelando a água parada. Não tocaria em nada. Não juntaria uma pétala murcha. E só assim me acostumaria com seu amor. Mas aí já seria tudo insuportável. E seu amor, podre.

Te amar não seria nada fácil e também não me custaria nada.  Decidi pelo não, e não fiz nada. Melhor pra nós dois.

Ale Kalko
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