Textos

23 de Março de 2015

Tecnologia e adoção de animais

Como a tecnologia pode ajudar a aumentar a taxa de conversão de… adoções de animais

Este ano, o SxSW trouxe algumas palestras sobre proteção animal dentro da programação do Social Good. Eu fiquei muito feliz — não apenas pela possibilidade de conhecer experiências de outros países na área e de conversar sobre isso com gente também interessada e engajada no assunto, mas também porque reafirma o principal motivo que me fez amar o festival desde minha primeira participação: não é um evento apenas de tecnologia, assim como eu não sou apenas a minha job description. O profissional e o pessoal se encontram em Austin, muito mais do que em qualquer outro evento do qual já participei. Tem que ser assim, pois não há distinção: a pessoa que dirige uma empresa de User Experience é a mesma que escreve zine sobre veganismo e resgata gatos. Acabou de vez a separação entre o day job e o night job.

Dito isso, quero contar o que vi sobre proteção animal no SxSW, porque talvez possa ser útil para os protetores e ONGs brasileiras também.

A palestra de Jackson Galaxy (The Cat Daddy) e Bryan Kortis (gerente de programas do Petsmart Charities) trouxe uma questão interessante: por que os milhares de vídeos de gatos que inundam a internet, com seus milhões de visualizações, não resultam em mais adoções de gatos?

Nos Estados Unidos, 8 milhões de animais entram em abrigos todos os anos. Destes, 4 milhões são eutanizados — de todos os gatos, 50% acaba morrendo. É uma taxa MUITO alta, comparada com a dos cães (15% dos cachorros nunca são adotados e sofrem eutanásia).

Já pensou se todo mundo que dá like em um vídeo de gatos adotasse um deles? Este vídeo do Maru, por exemplo, tem mais de 16 milhões de visualizações. Não haveria gato sem casa!

Segundo Jackson e Bryan, o que prejudica as adoções de gatos são os estereótipos sobre eles e o tipo de pessoa que os tem como bicho de estimação. Eles apresentaram resultados de uma pesquisa que demonstra que os preconceitos são antigos e persistentes. As pessoas ainda acreditam na crazy cat lady, uma mulher meio velha, solteira e chata; já os gatos seriam indiferentes, muito independentes e interesseiros — e por aí vai.

“We have to become advoCATs”, diz Galaxy, apontando que apenas 1/3 dos donos de gatos compartilham “cat content” online. Somos todos meio envergonhadinhos de ser pais e mães de gatos. Afinal, não é todo mundo que quer aparecer nas redes sociais como a velha solteirona louca dos gatos. Mas temos que sair do armário, com urgência, afirma Jackson, e mostrar que somos cool (como ele, músico tatuado). A sugestão dos palestrantes é bem simples: nós temos que compartilhar não apenas fotos dos nossos gatos, mas deles interagindo com a gente. E assim mostrar que gatos também têm uma rica vida emocional. Não, eles não são “interesseiros que não se apegam a pessoas”. Meus gatos me amam. Os seus também? Então o mundo precisa ver isso.

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As diferenças das questões de proteção animal nos Estados Unidos e no Brasil às vezes são muito gigantes. Participei de um workshop com a ASPCA — American Society for the Prevention of Cruelty to Animals — no qual eles contaram como utilizam Geographic Information System (GIS) mapping (usado pela polícia para mapear crimes). Eles apresentaram exemplos de mapas mostrando onde os abandonos são mais intensos. Com esses dados, conseguem trabalhar estratégias para diminuir as taxas de owner surrender ou programar mutirões veterinários.

Owner surrender é: o dono leva o bicho a um abrigo e diz que não quer/não pode mais ficar com o animal. Paga uma taxa e pronto, se livra do bicho sem culpa na consciência (aqui no Brasil as pessoas abandonam na rua mesmo).

A palestra foi apresentada por Greg Miller e Meg Allison — diretor e gerente do departamento de análise de GIS da ASPCA (por favor, note que a ASPCA tem um departamento só para isso. Proteção animal americana está há anos-luz do Brasil — uma observação que tem o objetivo de inspirar e reforçar o fato de que há muita gente pensando nisso e países com políticas públicas voltadas à proteção animal, e que um dia chegaremos lá!).

No final, foi apresentada uma ideia simples, que nada tem de tecnológica, e pode ajudar a aumentar as taxas de adoções: são os Adoptions Ambassadors. Pessoas que pegam um cão em um abrigo, ONG, ou de alguma protetora, e ficam com ele por um período — e o levam para todos os lugares, mostrando para os amigos. “Nunca fui em tantos happy hours”, disse uma moça que é Adoption Ambassador. Nada melhor para facilitar uma adoção do que mostrar o bicho em situações cotidianas, o que permite que a pessoa veja como ele se comporta, como é sua personalidade etc. É diferente de conhecer o cãozinho por fotos no Facebook ou no abrigo/feira de adoção.

Para colorir a manhã, a Austin Humane Society estava lá com alguns cães disponíveis para adoção. Fofuras que todo mundo queria apertar. O resultado pode ser visto em fotos com a tag #adoptSXSW no Instagram. E no Twitter.

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Também fui a uma festa, em um bar, com cerveja de graça e bichos da ONG Austin Pets Alive. Patrocinada por três marcas que vendem produtos e serviços para animais, a festa estava cheia. E as pessoas estavam lá não apenas pela cerveja: tinha fila até para segurar os cachorros. É um outro tipo de iniciativa que não se vê muito por aqui. As feiras de adoção acabam “pregando para convertidos”: só vai até lá quem já quer adotar. Colocar animais em lugares comuns e situações festivas, frequentadas por tipos variados de pessoas, pode ajudar a familiarizar cachorros com pessoas que nunca pensaram em ter bichos, e apresentar a ideia de que adotar é muito mais legal do que comprar. E dissipar a tristeza geralmente associada a animais resgatados em situações ruins.

Vai uma margarita e um dog pra ser seu forever love?

Alessandra Nahra
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