Textos

19 de janeiro de 2016

Tempo

Ela vai na frente, carregando um saquinho, em silêncio.

Elas vão atrás, uma de cada lado.

Caminham pelas pedras, devagar.

Vistas de cima, parecem um passarinho: o corpinho e as duas asas.

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Trinta e três anos antes elas se conheceram, na sexta série do colégio. Moravam no mesmo bairro e usavam o mesmo transporte escolar. Viraram amigas grudadas, BFFs dos anos 80. Juntas, deram tchau pra uma infância que não mais lhes cabia e desbravaram os primeiros territórios da adolescência. Andaram de mobilete atrás dos meninos, dançaram colado nas festinhas, cheiraram lança-perfume (e Rexona), paqueraram o Marcelo, o Caco, o Lalo, cometeram pequenas delinquências.

Elas queriam ser livres.

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O carro segue pela estrada que leva ao extremo sul do país. Na última cidade antes da fronteira, compram uns vinhos e uns cremes no free shop e rumam para la migra.

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Ela morou na praia e foi surfista.

Depois ensaiou ser punk e virou jornalista.

Mudou de cidade, de emprego, de país, de profissão, de ideia, de namorado.

Trabalhou em redação, em restaurante, em plantação.

Casou, não teve filhos, separou.

Achava que ser livre era ficar pelada na praia.

Desconfiava que tinha vindo com a peça de amar danificada.

Mas encontrou um guri que gostava dela mais ou menos como ela era, e isso já era bom o suficiente.

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Chegam na praia, se instalam na cabana, fazem fogo na lareira, cozinham uma massa. Duas bebem vinho, a outra não bebe mais. Contam uma para a outra o que se tornaram. Acham que têm mais 45 anos pela frente, e que esses próximos 45 serão mais repletos do que os primeiros. Sabem que demoraram para descobrir quem são, mas que agora já têm uma ideia melhor. Não começam mais do zero: já têm meio caminho andado.

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Ela virou publicitária e trabalhou no marketing de grandes empresas.

Ficou 13 anos casada, não teve filhos, separou.

Casou de novo, separou de novo, pediu demissão e diz que nunca mais trabalhará com marketing.

O amor foi uma questão, e continua sendo.

Já não faz muita questão de ser livre.

Mas agora parece que é mais livre do que era antes.

Trabalha com arte e tem tempo para caminhar de manhã.

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Sobre o que conversam nessa viagem:

1. Como querem ser “despachadas” depois da morte (tanto faz, não vou mais estar aqui pra ver/ quero uma celebração/ quero ser cremada de pijama e pantufa)

2. Doenças (enxaqueca/ refluxo/ gastrite)

3. O que produzem (textos/ jogos artesanais/ pastéis)

4. Trabalho (ai, semana que vem tenho que voltar pra São Paulo/ amiga, só por hoje, foca no agora)

5. Sobreviveram, apesar de (abandono/ coração partido/ entorpecentes variados)

6. Homens (mas que gaaaato o 22 da seleção do Uruguai!)

Também falam muitos “Que coisa rica!”, “Dá muito serviço”, “Que que eu vou te dizer…”, “Loco de bom.”.

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Ela loqueou bastante, daí casou, teve uma filha e foi morar na Bahia.

Depois se separou, voltou pro sul, estudou gastronomia, virou chef e continuou loqueando.

Foi livre, mas descobriu que a liberdade era uma prisão.

Nesse dia entrou para o Narcóticos Anônimos.

Lá conheceu o amor da vida dela, e juntos abriram uma pequena fábrica alimentícia.

Juntos frequentaram reuniões do NA e fizeram amigos na irmandade.

Juntos criaram a filha dela, e foram companheiros para toda a eternidade — até que a eternidade acabou.

Ele morreu um ano atrás.

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Ela para de caminhar, as duas que vinham atrás param ao lado dela, e o passarinho perde a formação. Ela ergue o saquinho que contém 1/10 das cinzas do marido. Vai jogar as dez partes que restaram do corpo dele em dez lugares bonitos. Lugares que ele teria gostado de ir.

Sobe nas rochas de Cabo Polonio, ao lado do farol, olhando para os lobos marinhos deitados ao sol, e esvazia o primeiro saquinho.

 

* Ilustração de Rodrigo Okuyama para Confeitaria

* * Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Alessandra Nahra
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