Textos

01 de Fevereiro de 2016

Ilustração:
Alessandra Lemos

É tempo que passa

Há algo de assustador em olhar para fora da gente e dessas telinhas luminosas que a gente não consegue largar. Não somente porque vemos que não estamos sozinhos, mas porque é nas coisas acontecendo que podemos ver a face do tempo. Cada pequena coisa está coberta de tempo, esse negócio infinito e tão esgotável ao mesmo tempo — e é quase como se pudéssemos tocá-lo. Você sente? Tempo está na gente, no corpo que muda, na visão que piora, no cabelo que cresce, na doença que dá e passa. Tempo está em deixarmos de ser quem já fomos um dia, em nos tornamos quem a gente não queria ser e em um dia não sermos mais nada.

A reserva que seca, a praia aterrada, o prédio demolido é tempo que passa. As ruas que mudam de lugar, a distância entre as cidades, as linhas que demarcam os países e a posição atual dos continentes é tempo que passa.

Gato dormindo, a respiração lenta e olhos bem apertadinhos é tempo que passa. Arroz cozinhando a fogo baixo, a louça que se acumula na pia, o tapete novo da sala é tempo que passa. Amigos que vão embora é tempo que passa. Ver os assuntos que tínhamos com alguém diminuírem até não sobrar nada é tempo que passa. Ter alguém com quem contar e compartilhar uma vida, essa cumplicidade, é tempo que passa.

O som que fazem as cordas do violão é tempo que passa. O livro que se lê, a história que se conta, as letrinhas que sobem no final do filme, tudo é tempo que passa. Mais duas linhas nesse texto não são apenas duas linhas: é tempo que passa. Mais do que uma abstração, algo que a gente enxerga pelos numerozinhos do relógio ou numa variável em um cálculo de velocidade, algo invisível, insípido e inodoro, o tempo é físico.

Tão físico que se pode ter e perder. Dizem até que ele pode ser entortado.

Só algo tão tangível poderia passar e carregar indiscriminadamente quem é pontual e quem está atrasado; carregar o que vive e o que é inanimado; carregar planetas, galáxias, tudo o que existe. Tudo boiando nesse caldo de tempo, nessa correnteza impossível de deter, e nem é uma questão de onde ele irá nos deixar, mas de quando. E o quando pode até ser um lugar que muda, mas é onde a gente sempre vai estar. Porque o tempo não passa por nós; é a gente que passa junto com ele.

 

 

* Este texto foi publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Aline Valek
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