Textos

06 de setembro de 2013

Empacotaram o amor

Empacotaram o amor. Mas isso não é invenção recente, dessas novidades que a gente vê no noticiário, acha um absurdo e fica se perguntando onde é que esse mundo vai parar. Não, não é. Empacotaram o amor já há alguns séculos, antes mesmo de inventarem a comida congelada e os salgadinhos com cheiro de chulé.

Colocaram o amor dentro de uma caixinha, dessas quadradas que ficam expostas nas gôndolas de supermercado, nas prateleiras das lojas. Uma caixinha com tamanho padronizado, rótulo, etiqueta, e uma bela imagem na frente. É uma caixa vistosa, dessas que as pessoas ficam olhando na vitrine a vida inteira, ansiosas pelo dia em que vão poder levar uma para casa.

Amor Romântico: é o que se lê no rótulo, escrito em uma letra robusta, cheias de curvas sensuais, e, logo abaixo, uma chamada dessas publicitárias para tornar a caixa ainda mais atraente: “aquilo que você sempre quis”. A data de validade é indeterminada. As letras no fundo da embalagem indicam que deve ser eterno, para a vida toda.

Ao passar dos anos, desde quando foi inventada, bem antes de nossas avós nascerem, essa caixinha – e seu conteúdo – foi se adaptando aos novos tempos. Ganhou uma nova roupagem, novos ingredientes, mudou de tamanho. Mas em essência, continua a mesma coisa. Basta abrir para conferir: é o roteirinho de um casal (um homem e uma mulher, claro) que se apaixona e faz de tudo para ficar junto a vida inteira, prometendo fidelidade um ao outro.

É claro que há mais detalhes nesse roteirinho, o que faz com que essa caixa seja mais pesada do que parece. O ciúme, parte indissociável desse pacote, tem um peso considerável. Acharam que colocar esse ingrediente garantiria o tempero do amor. E ele já está há tanto tempo na fórmula que o paladar das pessoas associa imediatamente esse sabor amargo ao Amor Romântico, de forma que não conseguem imaginar como seria esse amor empacotado sem o sentimento de posse. Sem ciúmes, não é amor, dizem. Ainda que seja a causa de grandes tragédias, os fabricantes recusam-se a tirar o ciúme do pacote.

Quando empacotaram o amor, decidiram que ele seria do tamanho exato de duas pessoas. Isso talvez explique o porquê de se recusarem a tirar o ciúme da fórmula. Sem espaço para mais gente nessa caixa, as pessoas ficam preocupadas com quem o parceiro ou a parceira possa se envolver. Matam e morrem, se preciso for, para garantir que o outro ou a outra seja fiel, do jeitinho que as instruções da caixa descrevem. Amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo está fora de cogitação, embora seja possível amar igualmente pai e mãe, filho e filha. Mas Amor Romântico, o legítimo, é diferente: serve apenas duas porções. Além disso, em vez de crescer e transbordar, de ter para dar e vender, ele se gasta. Tem que economizar. Ninguém quer dividir: é meu, é minha. Nem tente roubar.

Empacotaram o amor e o colocaram em uma caixa tão bonita e desejável que as pessoas amam mais a ideia do Amor Romântico do que a outra pessoa de fato. Claro que a propaganda tem influência nisso – e o Amor Romântico tem a melhor campanha publicitária de todos os tempos. O merchandising está na maioria dos filmes, livros, novelas e até desenhos animados. Mesmo antes de ter idade para possuir um amor, a pessoa já o deseja e já sabe exatamente o que esperar dele – porque todas as histórias que ela consome já lhe disseram como ele deve ser.

Quando uma pessoa consegue o seu Amor Romântico, dentro daquele pacote tão certinho, ela fica encantada. Abraça a caixinha, deseja não mais soltá-la. Mas, como todo produto que nos empurram, o conteúdo é bem diferente daquela imagem bonita mostrada na embalagem, o que pode ser um tanto frustrante. E toda a idealização do “amor para toda a vida” apresentado na caixa passa a ser projetado na pessoa amada, de forma que ela se transforme na “pessoa certa”. E assim, começam a colocar as pessoas dentro de caixinhas. Aperta daqui, reprime de lá; tudo para que ela se encaixe em um ideal que só existe no rótulo do Amor Romântico – aquele que todo mundo compra e engole sem nem saber por quê. Sem nem se perguntar: eu realmente quero isso? Eu realmente quero isso desse jeito?

Empacotaram o amor. E, quando deixaram no formato que caberia na caixinha que criaram para ele, deixaram muita coisa de fora. Formas de amar que não se encaixavam na historinha que nos querem vender. O que poucos sabem é que dá para ter um amor diferente. Que não tenha rótulos. Que não exija que sigamos um roteiro. O problema é que não tem a facilidade das coisas enlatadas: é preciso meter a mão na massa e fazer você mesma. Mas o gostinho de encontrar a sua própria fórmula de amor, ah, isso não está à venda nem nas melhores lojas.

* Imagem: The Dieline.

Aline Valek
Leia mais textos de Aline aqui.