Textos

22 de maio de 2014

Histórias reais de um mundo fantástico

Seu Luiz era o zelador da escola. Antes dos primeiros alunos chegarem, ainda com o portão fechado, ele já estava lá. Sua casa ficava nos fundos da escola, atrás das quadras de futebol. Alguns alunos brincavam que Seu Luiz estava há tanto tempo ali que, quando construíram o colégio, há oitenta anos atrás, acharam ele bebezinho no mato que viria a ser o pátio da escola. Na verdade, Seu Luiz ajudou a capinar o lote.

Em Campamona, perto da praia, construíram uma igrejinha no lugar onde encontraram uma fonte de água cristalina que, diziam, era milagrosa. Curava qualquer doença. Gente de toda parte, sabendo da fama da água, iam visitar a vila na esperança de curar suas enfermidades. As pousadas, que até então recebiam um ou outro turista por conta da praia, tiveram que se adaptar para acomodar os hóspedes doentes. A igreja e a fonte eram visitadas todos os dias, por um monte de gente buscando um milagre. Meses depois, tiveram que construir um cemitério. Era ao lado da igrejinha.

Elas eram gigantes e rastejavam nas florestas mais impenetráveis, na beira de rios tão largos que nenhum ser vivente sequer considerava haver um “outro lado”. Essas cobras eram tão grandes que devoravam até os mais duros dos crocodilos, com casca e tudo, sem sequer mastigar para sentir a crocância. Nenhum outro animal era grande o suficiente para conseguir devora-las. Elas eram tão grossas e pesadas que quando moviam seus corpos o faziam com a força e lentidão de um continente mudando de lugar. E quando o continente sob elas começou a se mover, carregando a vida para lugares mais frios, elas foram junto. Quanto mais frio, menos comida. As criaturas do seu cardápio ou não sobreviviam às novas condições ou fugiam, buscando lugares mais quentes. Sua monstruosidade de nada adiantou se não conseguiam se mover tão rápido quanto as cobras menores. Desde então, as gigantes rastejantes nunca mais foram vistas por nenhum ser vivo sobre esta terra.

Shin Min Rin é uma adulta, embora pela sua cara não aparente. Há pouco de humano em seu rosto, que talvez se pareça mais com um de filhote de esquilo, se esses bichos tivessem pele em vez de pelo e narinas em vez de focinho. Seu olho brilha com uma inocência genuína e sua voz de desenho animado tem o poder de transformar qualquer coisa que ela fale em algo fofo. Ela percebeu o fascínio estranho que causava nas pessoas com esse seu jeito tão peculiar e resolveu fazer algo com isso. Fechada em seu quarto e com a câmera do computador ligada, passava a tarde toda se exibindo para quem estivesse do outro lado. Virou cam girl. Mas seus espectadores pagavam para ela falar coisas meigas e sem sentido, imitar emoticons, vestir roupas engraçadas e comer alcaçuz.

Era uma cidade pequena, com casas tão simples quanto seus moradores, a maioria trabalhadores que iam para a capital todos os dias. Subindo uma das ruas mais compridas, quase no final da ladeira, havia uma casa branca. Os primeiros moradores eram um casal que esperava sua primeira criança. O homem trabalhava fora, a mulher ficava em casa sempre. Depois que a bebê nasceu, não passou muito tempo e a mulher descobriu que o marido tinha uma amante. Pôs ele pra fora. Ela, que nunca saía, pediu para a vizinha adolescente vigiar a bebê um dia, para fazer uma entrevista de emprego. Uma semana depois, ela se mudaria da casa que tinha sido um começo frustrado para a família que ela achou que teria. O próximo morador nunca ficava em casa. Nos fundos, seus dois cachorros ficavam amarrados, dormindo entediados o dia inteiro. A corrente era curta. Vez ou outra, o dono deixava eles ficarem no quintal da frente. Um dia, depois de alguns meses, jogaram carne com veneno no quintal da casa. O dono encontrou os cães mortos assim que chegou em casa. Achando que mataram os cachorros para roubar sua casa, o dono logo tratou de se mudar dali. A casa passou alguns meses vazia até ser alugada por um casal mais jovem. Eram simpáticos, animados, adoravam trazer os amigos para festinhas ou churrascos. No segundo mês na casa, começaram as brigas. Eram barulhentas, violentas, duravam a noite toda. Portas batendo, coisas sendo atiradas para fora, vidros quebrando. Os vizinhos esticavam os ouvidos para tentar captar qualquer frase que desse a entender os motivos da briga. Em um sábado de churrasco, já tarde da noite, os convidados já tinham ido embora quando outra briga começou. As mesas de metal que tinham alugado faziam um estardalhaço ensurdecedor quando eram arremessadas contra a parede ou usadas para quebrar janelas. Tudo se quebrava em meio aos gritos carregados de ódio. Os vizinhos que ficaram acordados até tarde, depois que a gritaria acabou, ouviram sons de saco plástico recolhendo destroços da briga. O homem não foi mais visto. A mulher só foi vista no dia seguinte, carregando caixas para o carro de um amigo. Depois disso, correram boatos dizendo que a casa era amaldiçoada. Por anos, não teve novos moradores. O mato tomou conta do quintal e as janelas quebradas pelos últimos moradores ainda podiam ser vistas naquele cenário de puro abandono. A casa branca ficou marrom. Os gatos de rua passaram a ser os donos da casa por longos anos. Nada trágico aconteceu a eles.

 

* Ilustração: Chelsea Greene Lewyta.

 

Aline Valek
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