Literatura, Textos

05 de julho de 2015

No caminho das pedras

Mulheres e Escritoras na Flip

Cuidado com as pedras, me avisaram sobre Paraty. Eu ainda não conhecia a cidade; estava prestes a ter minha primeira experiência na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Então só chegando lá pude entender completamente o que aquilo significava.

Caminhar naquelas pedras escorregadias e irregulares realmente foi um desafio. Prova de resistência. Com obstáculos. No esforço para não escorregar, tive um estalo. Aquela dificuldade, ironicamente, tinha tudo a ver com a jornada de ser uma escritora. Caminho complicado.

Fui convidada para participar de uma mesa de debate no sábado sobre a ocupação do espaço literário — pelas autoras e por personagens fora do padrão, porque esse espaço já está plenamente ocupado por homens brancos, como já é possível notar pela programação oficial da Flip: contei entre os autores convidados 29 homens e apenas 10 mulheres. Entre elas, um total de zero mulheres negras. Essa desigualdade que persiste ainda em 2015, apesar de ser assunto amplamente discutido, está longe de ser superado.

“Parece um dejá-vu. Há 30 anos era a mesma discussão, mas a cada geração parece que temos que começar de novo.” Quem disse foi Liz Calder, editora britânica e uma das idealizadoras da Flip. Ela estava presente em outra mesa de debate, a que assisti num auditório lotado na Câmara Municipal de Paraty. O interesse pelo assunto era grande, mas o espaço que ele ocupava ainda era nas “beiradas” da Flip.

Ali também estavam Martha Lopes e Laura Folgueira, que na edição passada deram início ao movimento #KDmulheres, ao fazer da praça da cidade um lugar de questionamento: onde estão as mulheres no evento? Um ano depois, as mesmas perguntas ainda eram válidas.

“Sou super a favor da igualdade”, disse um rapaz aproveitando o espaço para perguntas, “mas vocês não acham que também deveria ter um homem nessa mesa para falar da questão?” Porque uma mesa só com mulheres já é demais, né? Se o pouco espaço que conseguimos é visto como um excesso, imagina se estivéssemos nos palcos principais do evento!

Na mesa de debate que participei mais tarde na Casa Rocco, lembrei da resistência que eu tinha em criar protagonistas mulheres para as minhas histórias. É como se, para criar uma personagem mulher, a existência dela ali precisasse ser justificada. O mesmo vale para personagens com deficiência, ou negros, ou gordos, ou trans: só podem existir em contextos muito específicos. A presença masculina e branca, por outro lado, nunca precisa ter um motivo especial se ela é o default, o básico, o padrão.

A ficção também espelha a realidade nesse sentido: para ocuparmos algum espaço, nossa presença precisa ser justificada (mesmo numa mesa para discutir o espaço da mulher na literatura!), porque sempre vai parecer aberrante. Fora de lugar. Enquanto temos que literalmente brigar por alguma brecha, o espaço para os homens escritores — e para os protagonistas masculinos — parece ser virtualmente infinito.

Na mesa em que fiz parte junto com as editoras Larissa Helena e Lúcia dos Reis, conversamos desde a representação feminina no mundo nerd até o tratamento desigual que as escritoras recebem; e o que achei maravilhoso foi o encontro de gerações que esse evento proporcionou.

Mulheres mais velhas do que eu assistiam empolgadíssimas ao papo sobre literatura e ficção científica, especialmente porque viram na nossa voz a continuidade de uma luta que a geração delas já protagonizou. Em meio a mulheres mais jovens do que eu, percebi que estava exercendo uma importante responsabilidade: a de inspirar a próxima geração a valorizar as histórias contadas por mulheres.

Na Flip, tive a oportunidade de conhecer uma porção delas. Não somos poucas, não estamos paradas esperando por alguma generosa concessão para que possamos existir como escritoras. Estamos invadindo a literatura porque entendemos que esse não é um domínio masculino; é o nosso espaço.

Um dos momentos em que percebi isso foi quando, do lado de fora da tenda principal, aguardando para ver pelo telão a entrada de Karina Buhr, cantora que brilhou como escritora com seu livro Desperdiçando Rima, tive a felicidade de receber a notícia de que o livro mais vendido da Flip 2015 havia sido o de uma mulher: Jóquei, de Matilde Campilho, poeta portuguesa. Apesar de todas as dificuldades, a literatura produzida por mulheres não só prova ser viável comercialmente, mas sobretudo mostra que somos capazes de falar diretamente ao coração das pessoas e atingir um público bem diverso. No final das contas, somos pessoas escrevendo para pessoas.

As ruas do centro histórico de Paraty estavam repletas de poesia, música, troca de ideias e celebração à literatura, mas pra mim elas contam uma história de resistência: daquelas que corajosamente reivindicam sua voz e seu espaço no mundo, por meio da arte.

As pedras podem continuar criando obstáculos no nosso caminho, mas já não nos paralisam nem nos impedem de avançar.

 

* Imagem: Walter Craveiro/Divulgação

Aline Valek
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