Textos

10 de março de 2014

Papagaísmo

Seja bem-vinda ao templo do Papagaísmo. O culto vai começar em alguns minutos, então escolha um poleiro e fique à vontade. Enquanto espera, gostaria de ler este folheto sobre o Papagaísmo?

O Papagaísmo é tão antigo quanto a própria humanidade. Você talvez só tenha ouvido sobre isso por causa da internet, que possibilitou que a gente descobrisse tantas coisas novas e, ao mesmo tempo, tivesse contato com tanta repetição, não é mesmo? Por isso a internet foi escolhida como lugar para a construção deste templo. Não só porque é fácil de chegar e os terrenos são mais baratos, mas porque é um lugar que respira o Papagaísmo. Sem a internet, talvez o Papagaísmo não tivesse a mesma força.

O Papagaísmo, no entanto, se sustenta na própria essência do ser humano. Somos máquinas repetidoras, afinal. Aprendemos por repetição. As histórias que contamos são repetições de histórias já contadas de outras formas. Vivemos em ciclos marcados pela repetição de uma rotina. Repetimos os dias uns após os outros, os meses, as estações, as datas comemorativas, os anos. É na repetição que encontramos a fuga que torna suportável viver em um universo sem ordem.

Hoje o Papagaísmo está em seu melhor momento. Seus adeptos estão em todos os lugares e muita gente segue os preceitos papagaístas sem se dar conta. Isso é fácil de perceber em um passeio pela internet. O mesmo assunto sendo falado em uma infinidade de sites. A mesma opinião sendo proferida por uma multidão de rostos diferentes. Todos em busca de algo que possam replicar, para que com isso consigam mostrar o que endossam. Formar a própria identidade. Dizer o que defendem.

Não, não tem nada a ver com plágio, se é isso o que está pensando. No Papagaísmo, não há a apropriação indevida de uma criação. O que se repete aqui não é com a intenção de tomar para si a autoria, uma vaidade que para os papagaístas não faz tanto sentido quanto o prazer de repercutir uma fala ou ideia com as quais concordam. Além disso, os papagaístas também criam. Mas em suas produções transparece o caráter de réplica, usando o mesmo repertório de palavras já usadas antes para sustentar os mesmos argumentos que outros também repetem.

O Papagaísmo está acima de qualquer doutrina, movimento ou religião. É ele, aliás, que os ajuda a existir. Ou você acha que qualquer um deles iria muito longe sem que alguém os papagaiasse ao decorrer dos séculos? Mesmo quem se opõe e questiona os dogmas ou princípios que outros papagaiam por aí encontra no Papagaísmo seguidores dispostos a fazer o mesmo, transformando até o ato crítico de questionar instituições, movimentos, religiões, correntes de pensamento ou comportamentos em algo possível de se transformar em mera repetição.

O Papagaísmo é democrático, pois não se restringe a apenas um espectro político ou a um movimento específico. Onde houver uma ou mais pessoas reunidas em nome de repetir uma ideia, seja ela qual for, lá estará o espírito do Papagaísmo. Aliás, o Papagaísmo é engrenagem que move a disputa entre os opostos nos quais as pessoas gostam de se dividir. Entrar na internet, por exemplo, tem se resumido cada vez mais à busca de argumentos com os quais concordamos para que possam ser repetidos contra aqueles que acreditamos que estão do outro lado.

Informação é poder? Não enquanto não for replicada à exaustão. Repetição sim é poder, quando o jogo que foi escolhido para jogarmos foi a queda de braço. Se ideias medem forças, a mais repetida é a mais musculosa. É papagaiando que se espera ganhar um debate: esmagando a opinião contrária com a bolha inflada de uma opinião repetida massivamente. Talvez a isso se deva o sucesso e o crescimento do Papagaísmo.

Ah, o culto vai começar, veja! Ou melhor: escute. Eu sei, eu sei, é ensurdecedor. Essa confusão de vozes papagaiando ao mesmo tempo é uma coisa incrível e ao mesmo tempo perturbadora. Porque dá pra distinguir as vozes que estão replicando as outras ao redor, ainda que de forma descoordenada, quase num mantra. Mas, se você olhar com atenção, irá perceber também que, mesmo falando as mesmas coisas, é como se falassem línguas diferentes.

Cada um repetindo o mesmo tipo de fala, o mesmo tipo de ideia – e ninguém se escutando. As falas são cada vez mais repetidas e menos ouvidas. Lógico, você diz, se essas mesmas palavras já foram ditas, vou ouvir pra quê?, você me pergunta. Bem, aí é a hora em que te digo que Papagaísmo não é sobre ouvir o que vai exigir que você faça silêncio pra entender, mas sobre repetir aquilo que você concorda e tem pressa em amplificar. Essa é a beleza do Papagaísmo.

Ei, o Papagaísmo não é seguido apenas por pessoas acríticas. As pessoas mais críticas estão no culto de hoje, não está vendo? Questionamentos, especialmente os mais provocativos, não só são papagaiáveis como são amplamente papagaiados – se esse questionamento consiste em criticar os outros, é claro. Afinal, repetir sem parar críticas aos outros é a melhor forma de evitar criticar a si mesmo. Autoquestionamento é um troço que não dá para replicar, já que o de cada um seria único e não depende de ser transmitido aos quatro ventos para acontecer. Mas quem é que suporta silêncio hoje em dia, não é mesmo?

Além disso, se o Papagaísmo fosse sobre ser autocrítico e colocar a mão na consciência, teríamos que mudar o nome do animal. Mas essas plumas verdes ficam tão bem em você, não acha?

 

* Ilustração da própria autora.

Aline Valek
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