Textos

10 de setembro de 2013

A Ana do Cerrado

Fechei os olhos e pedi um favor ao vento…Leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas…Daqui para frente levo apenas o que couber no bolso e no coração. […] Mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros…Mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.

Tropecei nestas palavras na minha pesquisa sobre Goiânia. Depois de muito caminhar, vivo este momento. Só carrego comigo o que cabe em duas malas. E no coração, um amor leve e gratidão pela vida.

Eu sei. Cora Coralina, ou Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas, não nasceu em Goiânia, morreu ali. Sua cidade natal é Goiás. Goiás Velho. Lá, existiam muitas Anas: “Ana, Anica, Aninha, Niquinha, Nicota, Doca, Doquinha”. E, por isso mesmo, procurou um pseudônimo para que “sua glória literária não fosse atribuída a Ana mais bonita” do que si.

Ana nasceu no momento em que a escravidão era abolida do Brasil. Profundas transformações aconteciam na sociedade brasileira. E ela, uma mulher simples e forte, já muito cedo se afirmava. Doceira de profissão, começou a escrever aos 14 anos. E já até publicava. Tinha a quem puxar. Sua mãe era super independente. Dona Jacinta foi percursora na defesa do voto para mulher no final do século XIX.

Pesquisando sobre Goiânia, vira e mexe eu caía num verso da poetisa. E não pude resistir. Se Goiânia é a capital dos valores provincianos, Cora é a pura voz do Cerrado. Seus poemas me soam como Goiânia: um chamado ao valor do regionalismo. Mesmo Capital, Goiânia se mantém interiorana. Mesmo depois de morar em São Paulo, Cora guardava para os seus versos cada canto de sua terra.

“O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida” escreveu Cora. E eu não conseguiria encontrar melhor frase para definir o que O Brasil Com S acredita, o que eu retomo sempre em minha vida: o saber cotidiano.

 

* Assista aqui ao depoimento em que a poetisa conta mais sobre o seu pseudônimo.

** Texto escrito para o lindo O Brasil Com S, um projeto de pesquisa e curadoria para estimular o auto conhecimento do Brasil. Se você ainda não conhece, precisa conhecer.

 

 

 

Ana Luiza Gomes
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