Textos

07 de janeiro de 2014

Achei que meu pai fosse Deus

Perdi todos os sites que lia no google reader e achei uma boa oportunidade para mudar minhas leituras. Comecei a ler várias outras coisas fora da internet. Uma dessas descobertas foi o livro “Achei que meu pai fosse Deus – e outras histórias verdadeiras da vida americana” do escritor norte-americano Paul Auster.

Paul Auster começou esse livro quando foi convidado a fazer um programa mensal numa rede de emissoras públicas de rádio dos Estados Unidos. Não estava disposto a aceitar o convite, mas sua esposa lhe deu uma ideia – em vez de escrever as histórias, pedir aos ouvintes que mandassem as suas. O resultado superou todas as expectativas – em um ano, o escritor recebeu mais de 4 mil histórias. A sua seleção das melhores estão nesse livro que termino de ler hoje.

Auster escreve sobre os “sinais” das nossas vidas. Inspirada em suas histórias, decidi retomar o A Pattern A Day para escrever mais. Sobre leituras, sobre filmes, sobre artistas. Mas também para compartilhar um novo risco: escrever minhas próprias palavras. Para começar, um conto curto inspirado no nome do livro do escritor americano.

Como é bom recomeçar.

 

Naquele ano, meu pai retornara ao seu exercício profissional em escritórios, após longas jornadas atrás de um balcão de loja. Eu estava acostumada a vê-lo sempre à distância: ou estava no interior do estado ou enfiado na locadora até de noite.

Eu tinha acabado de sair da minha médica. Vivia algumas descobertas sexuais naquele mesmo ano e andava com pedidos de exames sem ter onde carregar. Eu tentava escondê-los na rua, enquanto enfrentava a multidão para chegar até um laboratório próximo. “Não há nada de errado”, dizia para mim mesma. Repetidas vezes. Tinha certeza de que meus exames estavam em ordem. Que aquilo era rotineiro e que eu deveria me acostumar com novos cuidados à saúde. Fui me tranquilizando, mas meus ombros teimavam em trombar nas pessoas no caminho. O vento parecia vir na direção contrária e eu agarrava os papeis com força, amassando contra o peito.

“Ai meu Deus”. Ameaçava chover e fui interrompida por uma voz grossa. “Filha?”, achei que minha aflição tinha se tornado tão alta que, por um momento, pensei em responder: “Deus?” 

Levantei os olhos dos meus próprios pensamentos para a realidade à minha frente. Meu pai agora trabalhava naquela região, estava no seu horário de almoço e em seu caminho de volta ao escritório. Ignorou os papeis, me deu um beijo na testa e seguiu.

 

* Ilustração da própria autora.

Ana Luiza Gomes
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