Textos

17 de junho de 2015

Desconstruindo Andarilha

Recentemente, tive de me reformular por inteira. Dizem que após um terremoto, só fica de pé aquilo que possui raízes profundas. Pois ficaram. A minha inspiração na história que me levou até aqui: a trajetória de vida da minha avó. A minha paixão por quem traduz criativamente a própria vida, através da arte. A minha vontade de continuar minhas pesquisas sobre cultura.

Comecei então o Andarilha: registrando, salvaguardando e difundindo histórias de pessoas inquietas que buscam em seu cotidiano, em sua história de vida e família referência para criar projetos inspiradores.

Um novo significado para a palavra Andarilha é o que o projeto propõe. Andarilho é aquele cuja busca não é por conhecer um lugar externo a si, mas sim o autoconhecimento.

Andarilho é aquele cuja as andanças são internas e se inspiram em sua cultura. Andarilho é aquele que busca em sua trajetória de vida e família, referência para si. Andarilho é aquele que compreende que o importante não é o destino, mas sim o caminho. Andarilho é aquele que se desloca para se conhecer melhor através do outro. Andarilho não distingue centro e periferia, mas apenas o que é humano e saberes.

Após passar o último ano entrevistando artistas, designers, fotógrafos e curadores brasileiros, volto-me para um projeto autoral sobre o próprio caminho, o percurso, o processo criativo. Vou em encontro de pessoas cujos modos de fazer e criar estão enraizados no cotidiano. Procuro tecer uma malha de Andarilhos que atuem na construção de uma memória afetiva comum. Minha língua, aliás, é o afeto. Meu tradutor são as diversas formas de expressão: arte, literatura, música, gastronomia, fotografia e audiovisual.

Meu mapa é o humano. Na bagagem, o outro. Convido você para ir junto.

Você que adora conhecer pessoas pelo mundo mas não perde a conversa de portão com a vizinha. Você que, ao montar a mala, sempre vasculha as fotos na gaveta da sua mãe em busca de histórias para levar junto. Você que presta atenção nas miudezas que vê por onde caminha. Você que busca inspiração na sua família, na sua história e na sua cultura para criar. Você, Andarilho.

Andarilho, pois vive o caminho. Busca, em sua família, inspiração. Em sua cultura, referência. Em si, trajetória.

 

* Imagem: Fotografia de Viquitor Burgos da casa de Celso Brandão.

Ana Luiza Gomes
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