Textos

17 de setembro de 2013

Minha nova terra

Aos 14 anos eu realizei meu maior sonho: morar fora. Fui estudar em Madrid. Repeti aos 17, num intercâmnio para a Australia. Repeti aos 24 numa loucura para Berlim. Vim parar em São Paulo aos 26 para começar dinovo, mas acabei de volta a Belo Horizonte um ano depois.

Hoje, eu acho que eu só fui me encontrar no meu próprio país. Em Belo Horizonte eu decidi fazer o meu projeto dos sonhos: contar a história de vida da minha avó Josélia em um livro. Vovó nasceu em Angicos, um pequeno povoado no sertão do Rio Grande do Norte.

Ela seguiu o rumo das migrações brasileiras em busca do desenvolvimento do país. A trabalho, de Natal para Recife. Pelo Rio São Francisco, chegou em Belo Horizonte em busca de novas oportunidades. De lá para Brasília para ver as filhas estudarem. E, finalmente, Cuiabá para acompanhar uma delas.

Vovó me contava que o seu maior passatempo, quando menina, era pegar um facão e ir de carona pelo interior cortando a mata para desbravar novos caminhos até o mar. Esta imagem ficou na minha cabeça até hoje, como retrato de família: mulheres aventureiras em busca de descobrir um horizonte novo.

Andarilha, minha avó me ensinou a ser nômade. Mas aos 30 (deve ser culpa do tal retorno de saturno) eu decidi mudar o percurso. Não mais buscar lá fora o que eu procurava tanto aqui dentro. Foi aí que eu fui em busca de descobrir o Brasil. O Brasil dessa saudade.

Fui pedir ajuda a todos os santos. Fiz novena, reza brava, promessa. Entrei logo com o pé direito. E tomei um banho de sal grosso um dia antes. Andei com um trevo de quatro folhas na bolsa. Fui me benzer logo em seguida. Me muni de fios de contas em volta do pescoço. Nas mãos, levei o tercinho de vovó.

Perguntei como era esse Brasil ao vendedor ambulante da praia. Na praça, questionei o pipoqueiro. Na rua, troquei uma ideia com os camelôs. Na saida da escola, petisquei uma informação com o baleiro. E o feirante me vendeu picado um traço ou outro desse brasileiro.

Chamei alguns amigos para almoçar lá em casa. Sentado a mesa, fiquei ali esfarelando o pão enquanto esmiuçávamos seu perfil. Brinquei com os talheres tentando esculpir seu rosto. Dobrei o guardanapo e mordi o canudo. Ansiosa para tentar desenhar todas as suas facetas.

Decidi peregrinar por alguns bares. Escutei algumas sabedorias do pinguço na entrada do bar. O garçom veio me oferecer uma pinga e uma piada. Tirou com a minha cara. Mas eu tomei foi um café pingado com o dono do bar. Perdi as contas de quantos bares frequentei e troquei as pernas de volta para casa.

Desisti de encontrá-lo em um lugar específico. Comecei a observar nas minha andanças por onde ele poderia estar. Ele me pareceu poeta. Destes que declamam as vivências de cada dia. Um poema que se faz com o tempo, com a passagem dos dias, do vento, do ar.

Belo dia eu o encontrei! O danado morava logo ali, num puxadinho da casa ao lado. Mas não fixava morada. Parecia improvisar uma casa a cada canto que passava. Tomava sol na laje pela manhã. De tarde, deixava o cachorro passear no cercado. A noite fumava um cigarro na varanda e assistia à TV a gato.

Mais de perto, tentei ver seu rosto. Não era m um homem. Não era uma mulher. Era: vários. Não era jovem, nem adolescente, nem velhinho, nem bebê. Era jovem, adulto, idoso, criança. Era tudo isso, junto. Não era rico. Não era pobre. Aliás, ele não se classificava em classes e não se reduzia aos números.

Fui interrogá-lo sobre seus antepassados. Não era índio. Não era negro. Seu avô era italiano. Sua mãe portuguesa. Sua bisavó japonesa. Sua mãe, nordestina. Nasceu em Salvador e logo foi viver no Rio. Passou um tempo desbravando o interior e o litoral. Era mestiço.

Convidei ele para sentar para comermos algo. Seu prato, uma mistura. Começou pelo feijão: Feijoada. Feijão Tropeiro. Feijão Preto. Tutu de Feijão. Tutu à Baiana. Feijão Branco. Verde. De corda. Mulato. Carioca. E depos pedimos a sobremesa: Arroz Doce. De Leite. De Creme. À Maranhense.

Partimos para a festa, queria me chamar para ouvir um som dos amigos, curtir um samba, tocar um batuque. E foi logo me mostrando o seu gingado. Jogou capoeira. Dançou um passinho. Arriscou um maracatu. Fechou uma roda. Rebolou. Incorporou. Entrou em transe.

Nos divertimos, mas o dia seguinte seria mais de muita labuta. Era garimpeiro em busca de uma mina. Era pescador de água doce e salgada. Caminhoneiro, aprendeu desde pequeno, a amar as estradas. As mãos eram calejadas de histórias sábias, o coração era cheio de ouro.

Foi então que perguntei seu nome. E ele me disse: “meu nome se escreve com S. O Brasil Com S”. O Brasil que teima em não ser um. O Brasil do cotidiano e não somente da capa de revista.O que se faz nas histórias locais e não só nos livros.

Nasceu do encontro entre a paixão pela a arte da designer aqui e o encantamento pelo regionalismo da pesquisadora Mayra Fonseca. Somos garimpeiras em busca de nos descobrir. E nos encontramos aqui, nesta terra chamada O Brasil Com S.

Um projeto de pesquisa e curadoria que existe para estimular o auto conhecimento do Brasil de forma contemporânea. A cada quinzena pesquisamos ora um lugar do país, ora um elemento cultural. E identificamos o que se escreve com S na arte, na música, no cotidiano e no comportamento.

Buscamos valorizar o saber cotidiano, as histórias locais e a pluralidade da nossa identidade brasileira. O nosso maior desejo é que o Brasil seja, finalmente, o assunto para uma boa prosa. Vamos lá?

 

* Nota da Confeitaria: acompanhe também a fan page do projeto.

Imagem: Adriana Varejão.

Ana Luiza Gomes
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