Textos

22 de maio de 2013

Sinestesia | Cegueira

“… dizem que o amor é cego… eu não acho… ele faz a gente enxergar muito mais… voltamos a ver coisas que já nem imaginávamos que existiam…”

Os hábitos, os mesmos.
Acordava todos os dias com a mão direita a procurar os óculos em cima do criado mudo.
Tateava o escuro, acertava o frio e o levava ao rosto.
A face ainda quente, de quem se escondia embaixo das cobertas.
O gelado do aro tocou a ponta do nariz. Aí pode abrir os olhos e ver.

Acordava para vida em 3 piscares de olhos.
Escuro, claro, escuro, claro, escuro, claro.
Claro, claro, claro.

Na inércia da rotina, um belo dia, tateou, encontrou, colocou.
Gelado, piscou: escuro, escuro, escuro.

Ainda era noite, pensou ela.
E não podia mais ver.
A armação era feita sob medida.
O conforto de um objeto que se molda ao uso após anos.
Os lençois trocados.
Os cobertores quentes.
O criado ao lado.

Teimou em piscar mais 3 vezes.
Nada.
Escuro, escuro, escuro.
Ficou aflita e devolveu os óculos à caixa.
Mas já não conseguia pregar os olhos.

Passaram-se dias assim,
na escuridão.
Vinha o sol e era forçada a ver,
claro.

Decidiu conferir o grau. Correto, disse o médico.
Decidiu trocar a armação. Perfeita, disse a oculista.
Decidiu deitar-se com eles. Não conseguiu.

Até que um dia, quando ainda estava claro, ela, morrendo de sono, decidiu tirar os óculos e coçar os olhos.

Esfregou fundo.
Apertou o escuro.
Abriu, então.
Doeu.
Perdeu-se a vista.
Cairam os óculos.
Tudo que era claro, ficou embaçado.

Foi tateando o chão como se fosse o mudo, criado.
Esbarrou, mas não foram neles.
Alguém os alcançou antes.
Pediu licença a ela e entregou-os em suas mãos.
Pela primeira vez, sentiu o aro quente.
Levou-o ao rosto molhado do vento e gelado do medo.

Piscou três vezes.
Escuro, claro.
Escuro, claro.

Parou, sentiu alguém encostar na ponta do seu nariz e ajustar os óculos à sua face.
Nem precisou piscar.
Abriu um sorriso e pode ver de olhos fechados.
Amor.

 

* Imagem de Claudio Silvano.

Ana Luiza Gomes
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