Textos

15 de abril de 2013

Sinestesia | Leveza

(Sugestão de trilha sonora para o texto aqui.)

Decidiu guardá-lo na gaveta. Andava agitado. Hora branco-transparente. Hora preto-luto. Quietava lá dentro, no escuro. No escuro não tinha cor. Não existia. Murchinho. Um dia, entre uma música e outra que tocava lá fora, escutou. Não era azul, nem amarelo, fingia de verde, mas lembrava mais a cor do mar. Ficava lá dentro, no escuro, imaginando: “qual a cor estava a tocar?”. De todos os sons, aquele o fazia inchar. E voltava a se agitar, se enchia de vontade. A menina, de fora, escutava a gaveta saculejar. Às vezes sentia que ia explodir! Aí, tirava-o da gaveta para passear. Do escuro a luz, ele, finalmente, era branco e cheio. Mas logo voltava a esmirrar, para dentro da gaveta, mais uma vez.

De tempos em tempos, ela o levava à luz. Até que um dia, nesses especiais, em que podia sair da gaveta, ela o surpreendeu. Foi levá-lo a um lugar mais distante. De fora do prédio, já escutava. Era aquele som, o de várias cores. Ele se enchia cada vez mais, para poder ficar mais perto daquela música. Não acreditava que, finalmente, poderia vê-la melhor.

Pois não é que a música não tinha uma cor definida? Era como ele sempre imaginou: nuances. Tantas cores a escutar que achou que não ia se aguentar. Ficou tão grande, tão iluminado, que não teve como. A menina não conseguiu guardá-lo na gaveta mais. Amarrou-o por uma corda ao seu punho, para não escapar. Até que um dia, tomada por aquela música toda, se deixou levar. Ele ficou enorme e a levou junto. Finalmente, voaram. E assim, ela a alcançou: a leveza.

 

* Imagem: Sara Perovic.

Ana Luiza Gomes
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