Textos

13 de julho de 2012

Chantagem suicida

-Socorro! Alguém me ajuda! Ele vai se jogar!

-Pula! Pula! Pula!

-Meu Deus, aquele homem vai se jogar!

-Depressa! Ajuda aqui, meu marido vai se arremessar de lá de cima!

-Ninguém vai me impedir! Eu vou emboraaaa!

-Pula! Pula! Pula!

-Nãããoooo!

-Calma moça, vou buscar ajuda. Meu cunhado é pastor, vai salvar seu marido.

-Traz logo, pelo amor de Deus. Olha que ele se joga mesmo, hein.

-Vocês estão duvidando, né? Mas eu vou pular.

-Pula! Pula! Pula!

-Não faz isso, homem! Pensa nas crianças.

-Aqui, aqui. Eu disse que traria meu cunhado.

-Graças a Deus.

-Qual o nome dele, irmã?

-É Osvaldo.

-Irmão Osvaldo, escute aqui um segundo.

-Irmão uma ova, seu viado! É melhor espirrar daqui antes que sobre pra você.

-Eu não tenho medo de nada porque Jesus está comigo, irmão. E ele tá com você também.

-Mentira! Se tivesse comigo eu não tava nessa situação.

-Ai, Santo Cristo, faz 3 meses que ele não arruma emprego. Tá numa judiação só.

-Mas o Divino é maior do que tudo isso. É preciso ter fé, irmão. É só do lado da luz que sua vida vai se endireitar. Deus é mais!

-Eu não aguento mais essa vida. Meus filhos não merecem isso.

-Pula! Pula! Pula!

-Eu vou pular!

-Nããããoooo!!!!!

-Não pula, irmão! Olha aqui sua mulher. Essa pessoa maravilhosa que está do seu lado nessa hora de sufoco. Você trabalha, irmã?

-Por 2.

-Olhe só. Uma mulher que trabalha por 2, só pra ver seu varão e seus filhos alimentados.

-Mas ela trabalha tanto que já não faz mais nada dentro de casa.

-É verdade isso, irmã?

-Bom, com 2 empregos fica difícil fazer janta.

-Antes fosse só a janta! Nem janta, nem almoço. Nem cafezinho ela passa. Tô comendo miojo há meses.

-Mas ela vai fazer, não é irmã? Vai deixar seu marido corado de novo, saudável, pra ele não saltar do prédio. Vai fazer a janta e o almoço todos os dias.

-Posso deixar pronto quando chegar, mas…

-Quando chegar? Ela chega 11 da noite todo dia! E cansada. Nem trepar, eu trepo mais. Que vida desgraçada. Eu vou pular!

-Pula! Pula! Pula!

-Não, irmão! Sua esposa te ama e vai cumprir com as obrigações dela de mulher, não vai, irmã?

-Bom, pode ser… se ele não se jogar, eu trepo sim.

-Tá vendo só, irmão? As coisas vão melhorar.

-Mas e o futebol? Ela me enche o saco toda vez que saio pro futebol.

-Não vai encher mais não, pode descer.

-E eu tenho escoliose. Dor nas costas todo dia.

-Ela faz massagem, irmão.

-E quando não conseguir tomar banho?

– Ela dá!

-E minha unha encravada? Acho que foi por isso que perdi o emprego.

-Ela vai cortar.

-Bom, se é assim. Eu desço.

-Peraí, pastor. Esse não era combinado.

-Fica quieta, irmã. Ele vai descer.

-Ei, Osvaldo.

-Fala, meu amor. Estou descendo!

-Só mais uma coisinha.

-Diz!

-Eu dei pro seu irmão!

-Ploft.

Ana Mattioni
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