Textos

02 de agosto de 2013

Coração de mãe não cabe mais um

-Dona Verinha?
-Pois não?
-Não tá lembrada de mim?
-Desculpe, eu…
-Katia, caramba!
-Ah sim, Katia! Katia geléia! Deus, quanto tempo.
-Nem me diga. A senhora tá morando aqui por perto?
-Estou visitando o meu mais velho. Mas você está formidável, garota!
-Ah, que isso, a senhora que está. O Luca tá morando por aqui? Me mudei pra cá ano passado.
-Está sim, com a esposa e os filhos, graças a Deus.
-Ah claro, que bom. Nossa, lembro dos meninos desse tamaninho.
-Pois é, já estão enormes, como você. O Luca é doutor, com consultório próprio e tudo, vai de vento em popa. E o menino ainda arruma tempo até pra serviço comunitário. Só Deus mesmo pra entender.
-Que maravilha. E a Giginha, como vai?
-Bem.
-Bem mesmo?
-Sim, bem.
-Que bom, que anda fazendo? Tenho saudades daqueles nossos tempos.
-Ela trabalha com alguma dessas coisas de internet.
-Puxa!
-Não casou.
-Ah mas ela ainda é jovem, vai casar, ter filhos…
-Filho já tem! Dois, ainda por cima.
-Caramba! A senhora está rodeada de netos então. Que coisa boa.
-Boa? Olha que três já estava de bom tamanho, viu. Porque os meninos da Gisela dão trabalho por 10. E ainda por cima passam as tardes na minha casa, e eu já não estou em condições, sabe como é?
-Entendo. A senhora não vê a hora do pai ir buscar no fim de semana, né? Hehe.
-Pais! E ela nem sabe ao certo de quem são. Uma judieira. E o tempo vai passando, né minha filha? Ela já está ficando velha e não arruma ninguém, engordando e não pára de comer. Em algum momento essa bomba vai estourar.
-Sei…
– E a coitada ainda não tem sorte. Ou não tem competência mesmo, porque não pára num emprego. Perco as contas das vezes que sobrou pra eu pagar algumas faturas do cartão.
-Hum.
-Aliás, acho que ela precisa de ajuda, porque o tanto que ela come, gasta também. Compra tudo o que vê pela frente. E pior: nada fica bem nela. Afinal, já está beirando a obesidade.
-Nossa, mas ela era tão magrinha.
-Disse bem: era. Magrinho está o Luca. Lembra o tanto que ele era rechonchudo na infância? Às vezes acho que ele anda um pouco pálido. Mas também, aquela mulher dele vive de dieta. Imagina que ela serve semente na hora do jantar? E meu filho lá é passarinho?
-Ai, dona Verinha. Só a senhora mesmo.
-Só por Deus, minha filha. Só por Deus. Vocês deviam se reaproximar, lembra como era doidinho por você? Vou te passar o número dele, você liga e faz uma surpresa que ele vai adorar.
-Hehe, acho melhor…
-Mas me conta, como anda a vida?
-Ah! Bem, muito bem. Casei, separei. Fui morar na Espanha, casei de novo, separei outra vez. Aí chegou a crise e eu fiquei desempregada, morei em albergues por um tempo, vendi artesanato… tinha que me virar né? Fiz um curso de artes cênicas e trabalho com isso hoje. Dou aulas e agora estou atuando em um monólogo musical ali na rua Augusta.
-Ah, certo… vou te passar o número da Gisela então, tem onde anotar?

 

* Imagem: Inesa V.

Ana Mattioni
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