Textos

10 de agosto de 2012

Do térreo ao fim do túnel

– Como vai?

– Tudo bem?

– Sabe aqueles dias em que você não devia ter saído da cama?

– Foi ruim?

– Ô. Pra começar, eu acordei. Acordei tão cedo que meus olhos não respondiam aos estímulos dos ouvidos que eram violentamente invadidos pelo alarme do celular.

– Parece horrível.

– E é. Mas algo em mim despertou e eu levantei, por fim. Para minha surpresa, a comunicação olhos-ouvidos demorou 40 minutos para acontecer e eu já estava inevitavelmente atrasada. Mais um dia…

– Oh, mas que pena tudo isso.

– Aí eu corri e joguei uma água fria no rosto pra acordar de uma vez. A sensação térmica era a de uma queimadura de 4° grau, só que ao contrario.

– Que horror.

– Me vesti. Mal, como sempre que levanto atrasada. Nem preciso dizer que não tomei café. Calcei os primeiros sapatos que vi pela frente e, não demorei pra perceber que estava conversando com a calçada molhada, tamanho o buraco que tinha na sola.

– E você conseguiu chegar ilesa?

– Sim. Quer dizer, mais ou menos. Eu cheguei a mencionar a chuva? Pois é. Cheguei ensopada e com o cabelo repartido em gomos. Ainda bem que eu não tinha nem penteado antes de sair.

– E aí?

– Aí que estamos chegando na pior parte: o trabalho. 3 reuniões e 8 cafés. E eu nem gosto de café. Isso tudo antes da hora do almoço. Eu disse almoço? Foi substituído pela 4ª reunião do dia, a que ia decidir os brindes do dia das mães. E eu que nem sou e nem tenho mãe, como fico? Então eu resolvi que esse não era mesmo meu dia e tive cólicas monstruosas. Essa foi a melhor parte. Tomei alguns comprimidos e não voltei mais pro escritório.

– Puxa, que deprê. Mas agora você está bem, né?

– Depende. Porque se a louça moribunda que estava na pia de manhã não tiver se lavado sozinha, eu não respondo por mim.

 

Ana Mattioni
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