Textos

18 de dezembro de 2012

O homem ideal

– Então não deu certo?

– É, não foi dessa vez. Mas melhor assim, ele não tinha a coisa, sabe?

– Como assim, que coisa?

– Ah, um homem precisa preencher alguns requisitos básicos pra você se apaixonar por ele, né.

– Tipo?

– Tipo o perfume que ele usa. Isso se usar. Um homem tem que ser cheiroso.

– Isso é fácil. O que mais?

– Tem que ser forte e saber abraçar. Se for alto, melhor ainda. Mas que não passe de 1.90.

– 1.90 me parece bastante.

– Tem que ser inteligente, mas não mais do que eu.

– Justo.

– Também gostaria de ser mais bonita do que ele, mas não a ponto das pessoas comentarem. Queria ver a invejinha estampada na cara das recalcadas quando eu passasse com ele a tira colo.

– Então tem que ser fora da curva.

– É, isso aí. E falando nisso, ele tem que sentir ciúmes, mas sofrer sozinho. Porque já to por aqui de homem paranóico.

– Nem me diga.

– Também quero que ele me dê espaço, me deixe sair sozinha em paz e me ligue só quando for realmente necessário.

– E se sentir saudade?

– Aguenta firme, faz bem pra relação. E ele também tem que ter vida própria. Precisa trocar nosso cineminha pelo futebol. Mas nunca pela mãe dele.

– Esse é um ponto delicado.

– Sim. Um mês inteiro de bebedeira com os amigos não causam os estragos de um domingo na casa da sogra. Aliás, se ele não tiver família, marca pontos.

– Mas aí se apega mais fácil. Difícil largar, hein?

– Então que more em outro estado, sei lá.

– Melhor assim. Loiro ou moreno?

– Loiro. E moreno.

– Olha só, maleabilidade.

– E digo mais, sonho mesmo com um ruivo sem sardas e olhos azuis.

– Ok, retiro o que disse.

– Já ia me esquecendo, excesso de pelos e escassez de cabelos estão fora de cogitação.

– Que maldade.

– Maldade. Isso é algo que não pode faltar. Pra ser amor mesmo, ele tem que ser malvado . E sem essa de me reprimir quando falo mal dos outros.

– Isso é de fato insuportável.

– Muito. Tem que ser perverso, mas sem ser feminino. Não pode se animar tanto ao contar ou ouvir uma fofoca. Finja um desdém, por favor.

– Mas que não deixe de te contar!

– Claro. E agora o principal ponto, que não é nada negociável.

– Estou ansiosa.

– O senso de humor. Se não me fizer rir nos primeiros 5 minutos de papo, não vai me comer jamais.

– Acho 5 muito.

– Verdade. 3 então, sejamos justas. E se o assunto é tempo, vamos falar sobre o timing. Fundamental.

– Pra que mesmo?

– Pra tudo. Pedir o telefone, conhecer o melhor amigo, chamar pro cinema, beijo na testa, motel vagabundo, presentinhos fora de hora, presentinhos dentro de hora, fondue, Campos, Ilha Bela, Buenos Aires, Paris, dizer que me ama ou dizer que tenho um alface no dente. Enfim, tudo tem seu tempo.

– A propósito, você está com um alface no dente.

– Saiu? Continuando, algumas coisas práticas: tem que gostar de ler, e ter visto pelo menos 3 filmes do Fellini pra dizer se gosta ou não. Que ele saiba cozinhar melhor do que eu, mas que só eu consiga fazer o prato preferido dele como ninguém. Ex-namoradas só casadas, diplomatas ou falecidas. Que ele goste de animais, mas não cogite viver sob o mesmo teto de um. Que goste de crianças, mas sem exageros pra não dar pinta de pedófilo. Que beba, por favor. Pode fumar também, por favor. Vegetarianos, não. Nem preciso dizer que se tiver bafo também não, né? Tem que gostar de música boa, independente do estilo. Mas jamais poderá gostar de Ana Carolina.

– Se gostar, é gay.

– Exato. E eu gosto de homens muito machos. Ou, pelo menos, machos.

– É, macho já ta bom.

– E tudo aquilo que denota sua macheza me agrada também. Tem que praticar algum esporte, de preferência futebol. Ou alguma luta. Nem se atreva a me vir com tênis ou polo aquático. Tchau. Tem que ter aquela sensibilidade que poucos têm, de saber a hora certa de tirar a camisa e me matar do coração. É quando tem visita em casa? Não. É quando tá pedalando na ergométrica? Menos ainda. Não quero que se ofereça pra lavar a louça ou tirar o lixo. Apenas faça. Malhar o tríceps com qualquer objeto caseiro com mais de 3 quilos, vide um saco de arroz, é patético. Perde meu respeito e corta o apetite. Que ele seja homem, mas nunca sério demais. Isso é uma arte. Que a profissão que ele escolheu não seja um meio repleto de mulheres ou administração de empresas. Se ele nunca tiver ido ao JUCA ou Economíadas, posso até pensar em constituir família.

– Não posso nem dizer que você é exigente. E os vaidosos, o que fazer?

– Exterminar um a um. Uma coisa é certa, se é muito vaidoso, ou é inseguro, ou é narcisista ou é feio. Dos 3, eu quero distância. Claro que não pode ser um porco. Corte suas unhas, mas, baby, passar base é digno de uma tarde inteira de risos. Seu cabelo sempre será mais bonito ao natural. Tudo o que eu quero é um cabelinho macio pra descansar minha mão de vez em quando. Seja limpo, cheiroso, vista-se bem, apare a barba e não me deixe perceber seu novo corte de cabelo. No mínimo, 2 semanas sem transar até recuperarmos a intimidade.

– Estou até ficando tonta.

– E pra finalizar, um toque no visual: use tênis, não use Crocs. Terno, mas sem gravata. Ah, e me dê flores. Mas que não se torne um hábito. E nunca, jamais, ache que elas são um presente. Não são.

– Sabe que apesar de sua lista ser um tanto quanto vasta, acho que tenho alguém pra você. Que preenche todas as exigências.

– Requisitos. Quem é?

– O Paulo, lembra? Amigo do meu irmão. Ele não é ruivo, mas tem o olho azul, é fã dos Beatles e a mãe dele morreu já faz uns 10 anos.

– O Paulo? Nem pensar.

– Como não? Ele é o máximo. Até eu daria. O que tem de errado com ele?

– É corinthiano.

Ana Mattioni
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