Textos

09 de janeiro de 2013

Sorria, meus bens

– Olha, vamos acabar logo com isso. Serei prática e só quero o que é meu por direito.

– Maravilha.

– O apartamento, por exemplo.

– É alugado, mas você pode ficar com ele. O condomínio não pára de subir.

– Como assim alugado? Fomos casados por 12 anos e você me diz isso agora?

– Oras, o flat na época te impressionou e fiquei sem graça de contar depois. Mas que fique claro que nunca te cobrei um aluguel.

– Eu não acredito. Todos os meus sonhos moraram ali.

– Devia ter dito antes, seria bom ter alguém pra rachar.

– Seu insensível.

– Vamos lá, o que mais?

– O carro.

– Você já tem o seu.

– Mas ele é 1.0!

– Não seja mal agradecida, era o que eu podia na época.

– Aposto que pra tal de Joelma você deu uma bela USV não é, seu pilantra?

– Não seja ridícula. E é SUV.

– Pois eu acho que tenho direito a uma parte do seu carro sim. Afinal, usava ele nos dias do rodízio e completava o tanque de 15 em 15 dias.

– Com o meu dinheiro. Aliás, obrigada por me lembrar deste detalhe, eu gastava fortunas de táxi toda terça-feira pra você não ter que sair meia hora mais tarde pra aula de tênis. Vou botar isso na sua conta. As aulas inclusive.

– Tá maluco? Você me matriculou no tênis porque queria uma companhia.

– E só o que eu ganhei foram algumas raquetadas no dia em que eu saí de casa.

– E foi bem feito. As raquetes, inclusive, eu vou levar.

– Tarde demais. Já dei pra Joelma, que, ao contrário de você, joga comigo e não em mim.

– Espero que ela não queira ficar com o Netuno também. Era só o que me faltava.

– Nem que ela quisesse, não sou trouxa de deixar ele destruir mais uma casa inteira. Além do mais, tem as despesas de comida, veterinário, pet shop, dia das crianças… Fique tranquila, o Netuno é todo seu.

– Bem, mas sabe que com a separação ele ficou muito abatido. Acho melhor nós dividirmos a guarda por enquanto, assim ele se acostuma aos poucos.

– Negativo. Além do mais, a Joelma é alérgica.

– Ela é a própria alergia. Ainda bem que não tivemos filhos, assim não tenho que entregar minhas crianças pra passar o fim de semana com essa encapetada.

– Sem drama. E você nem pode ter filhos.

– Mas seria uma ótima mãe.

– Olha, já está ficando tarde. O que mais, hein?

– Plano de saúde.

– Eles não tem cobertura pra ex-mulher.

– A casa de Búzios!

– É da minha cunhada, Roberta.

– Mas que merda!

– Tem aquele terreno em Taboão da Serra…

– Ótimo, é meu.

– Mas estamos há 8 anos sem pagar os impostos, então já viu, né.

– Puxa.

– Aliás, é bom que você saiba que eu transferi seu título do clube pra você sabe quem.

– Pra chapeira.

– Eu já disse que ela é gourmet. Para com esse lance de chapeira.

– Gourmet de furgão de dog.

– Pelo menos ela trabalha, né? Aliás, isso é algo pra você começar a se preocupar também.

– Vai começar a ofender?

– A não ser que você encontre outro otário pra te sustentar, o que acho difícil.

– Bom, se você não quiser ficar com nossos amigos também, talvez eu tenha uma chance com o Toto, que sempre teve uma quedinha por mim.

– Que NOSSOS, se quando eu te conheci você só andava com a pentelha da Roseli?

– Que inclusive se afastou depois que começamos a sair.

– Azar. Se quiser as receitas do livro da vovó, posso fazer umas fotocópias pra você.

– Por favor. Aliás, notei que você mudou a senha do Netflix, pode me passar a nova?

– É jojojoelma2013.

– Quanto sadismo.

– Ah, tem outra coisa também. Vou ter que buscar o piano da minha mãe, que já cobrou 3 vezes.

– Mas não é justo, agora que estou aprendendo a tocar o disco da Celine Dion.

– Também tem o faqueiro de prata que está na família há anos, e aquele quadro que meu primo Waldir trouxe da Espanha, deve estar valendo um dinheirão. tem meus livros, os LPs… ah, já cancelei seus cartões de crédito e meu advogado está providenciando as mudanças no contrato de aluguel, se é que te interessa continuar no apê. Tem mais alguma coisa que você queira?

– Uma segunda chance.

 

* Ilustração de Yumi Shimada.
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Ana Mattioni
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