Textos

13 de agosto de 2014

Agora que tenho você

Agora que tenho você, terei que ser outra. Terei que ser. Mesmo não querendo, eu serei.

Agora que tenho você, terei que sair do meu esconderijo de pensamentos tortos e levantar da cama para te ninar.

Noite e dia, skin to skin. Cantarei uma canção, mesmo não sabendo cantar, e olharei para seus pequenos olhos desfocados como querendo encontrar a resposta para o vazio que nos cerca.

Agora que tenho você, terei que inventar pequenas histórias diárias e não ser mais tão sincera ao falar o quanto detesto o Papai Noel e um milhão de coisas que fazem as pessoas rirem. Logo eu, que raramente sorrio profundamente, terei motivos de sobra para gargalhar.

Agora que tenho você, terei que percorrer as ruas dessa cidade blefe disposta a trocar uma ou duas palavras com pessoas que antes me ignorariam como a um homeless roto e fedorento.

Agora que tenho você, farei o que não quero fazer e fingirei que tudo bem, que é assim que tem que ser daqui para frente, porque não sou mais só no meu mundo egoísta e obsessivo. Obsessão. Por uma vida menos previsível. Mas quanto mais tento me desvencilhar do vulgar, mais sou engolida por essa massa amorfa chamada existência. Existência que nem me pertence mais.

E é aí que está a magia de tudo. De ter você dentro de mim, chutando meus órgãos achatados carinhosamente. E eu abestadamente achando isso lindo.

Você continua a crescer na mesma proporção do meu amor descontrolado. De disforme, você não tem nada. É real. Você é certamente o mais próximo que cheguei do meu instinto animal.

Estanco meu choro cheio de hormônios e lembro que não posso mais ser triste. E sinto culpa. Basicamente, de tudo. Desde a água que tomo até o caminho que faço para o trabalho. Mas é uma culpa boa. Aquela coisa de padecer no paraíso agora faz todo sentido. Mesmo meu paraíso sendo tão diferente do dos outros.

 

* Ilustração: Jason Levesque.

Ana Paula Magalhães
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