Textos

20 de agosto de 2013

Cola

Vai ali na gaveta e pegue aquela cola que comprei semana passada. Isso. Agora junte seu coração, ou melhor, o que sobrou dele, e cole cada veia arterial rompida pela dúvida que um dia passou pela minha cabeça. Sorry. I’m so sorry. Mas do jeito que tava, não foi possível fazer planos. Que planos? Aqueles que a gente nem lembra mais. E que ficaram lá no começo das coisas, quando o sofá da sala ainda tinha certa graça. Melhor, quando você sorria. Faz um tempo. Aquele seu sorriso de fotografia ficou guardado no HD do notebook que vendemos ano passado. E com o pouco dinheiro que ganhamos, perdemos pra sempre suas risadas mais sinceras. Uma pena. Mas veja bem, meu amor, o coração tem como colar. Faz algo assim como que uma ponte de safena. Vai reconstruindo uma a uma as veias mais delicadas e finas. Aquelas que ligam os amantes no momento que se unem. Isso. Passa mais um pouco de cola vai, que é pra ver se dura por mais tempo. Pois bem, agora com cuidado feche as feridas maiores. As veias mais importantes. Isso. Um pouco mais ainda de cola, mais um milhão de mensagens trocadas, outras tantas juras, não se esqueça das confissões por entre os lençóis do dia anterior, das noites frias e silenciosas quebradas por seus inumeráveis soluços, dos dias infindáveis e rastejantes, das cartas rasgadas, das minhas verdades que nunca existiram e de todas as conversas amarguradas que tivemos. Pronto. Tudo bem coladinho. Agora preste atenção: nunca olhe pro seu peito. Nunca. Sempre adiante. Vai lá. Lembre-se que tá tudo sempre muito bem, que você é forte, nova, bonita, bem-sucedida, inteligente, tem tudo pra ser feliz. Mas não é.

 

Imagem: Redmer Hoekstra

Ana Paula Magalhães
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