Textos

23 de setembro de 2013

Diferente

“Olha pra cima, porque é lá que estão as melhores coisas”. Soltou a frase assim, no meio da rua, da boca pra fora, num supetão de pensamento que ela mesma se surpreendeu. Ele riu, sem entender muito bem o que aquilo significava. Levantou a cabeça, avistou o céu. Azul, nuvens brancas, como havia de ser. Nuvens. Pragmaticamente são só nuvens. Essa densidade formada pela condensação de partículas de água. Cobriu os olhos dele e sorriu. “Lá em cima tem felicidade”. É lá no alto que estão as verdades, o elevado, a existência de si. E o amor. Mas depois que viramos adultos, nos acostumamos a sempre olhar pra baixo. O concreto, o palpável, aquilo que cabe dentro das coisas classificáveis. E só. Aqui embaixo não tem a surpresa, ou o incompreensível, ou o sentir dentro do peito a pequenez das gentes diante do firmamento. Já o céu é igual em todos os lugares. Tudo um só, unindo de alguma forma o que somos. Bichos. Ser, humano. Ser humano é ser estúpido. É magoar o que se ama em busca de sensações. De liberdade. Uma falsa liberdade, porque sem consciência de si, não se é livre. E daí vem o sofrimento. A dor. O que se faz é o que se é, o que se tem é o que se é. E ponto final. Mas ela não, ela criava seu próprio céu. Dentro. E acreditava que todos teriam a mesma coragem de perceber o outro. E chorava. De um choro tão verdadeiro que causava piedade em qualquer um que passasse por sua janela aberta. Menos nele. Ele, esporadicamente sem culpa pela sua solidão. A dela. Aceite seu isolamento, mas não concorde. Abaixe a cabeça como um cavalo amordaçado e fique aí, quietinha, esperando seu dono chegar. Mal sabe ele que quem mais sofre é aquele que machuca. O céu dos dois, agora, completamente diferente.

 

* Imagem: colagem de Francisca Pageo

Ana Paula Magalhães
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