Textos

30 de outubro de 2013

Meu

Parece que foi ontem que te vi entrando pela porta segurando um saquinho de papel cheio de doces e falando calmamente: “isso aqui é pra depois do almoço.” Suas condições sempre tão corretas. E aceitávamos a espera. Mesmo que longa. Aceitávamos e respeitávamos, porque você era nosso herói. Nosso não. O meu herói. E heróis, mesmo os que já estão mortos, são pra se respeitar. Te amava quieta. De um amor tão profundo e de uma admiração tão grande que chegava a perder o fôlego. Seu semblante de Monalisa, suas camisas de botões cheias de amaciante, suas calças de brim, a sandália marrom, o cabelo escassamente penteado, seu cheiro de lavanda, suas mãos grossas, os olhos verdes, voz baixa, porém firme, suas verdades certeiras, seus contos de pescador. E foi lá naquele interior de meu deus que você nasceu. Sua mãe, costureira, seu pai diziam ser artista. Minha avó dizia que era vagabundo. Eu não acreditava nela. Até hoje romantizo esse meu bisavô artista. Sonhador assim que nem eu. Vagabundamente feliz. E você ali, no meio daquele nada. Crescido numa cidade de poucas perspectivas. Filho de um sonhador e de uma “fazedoura de roupas”. Os irmãos todos batizados com nomes de índios. Você, o filho da dor e tristeza. Coisa mais pesada de se carregar desde o nascimento. Parece que sua vida toda havia de ser traçada por sua alcunha. O estudo escasso em uma escola sem cadeiras. Foi lá e leu todos os livros da estante de madeira velha. Contava pros amigos a história do mundo no intervalo de um peixe e de uma isca. Casou-se. Amou. Fudeu-se. Sonhou. Teve uma dezena de filhos. Talvez esse tenha sido o seu maior erro. Amou demais e esqueceu de si mesmo. Sua natureza. Saiu da sua vila e foi pra capital. Tentava se adaptar a algo mais moderno. Surtava ao ver como o mundo, rapidamente, já não era mais o seu mundo. Seu rio Pindaré deixado pra trás, as águas agora turvas, os peixes mortos, as não-pescarias. Lutou uma vida inteira. Escreveu uma dúzia de contos. Andava pra lá e pra cá com uma velha máquina de escrever nas mãos. E ia, caminhando quietinho, devagarinho e, mesmo com o câncer carcomendo suas entranhas, sorria. De um sorriso tranquilo que me enchia a alma. Mas a minha juventude cretina não me deixou te amar ainda mais. Aproveitar mesmo. Te apertar, te beijar, conversar e rir de suas histórias mentirosas. Alegrava-se com o pouco de tempo que lhe restava. Animava-se quando líamos o que nunca entendíamos e ainda dávamos pitaco. Mudava uma letra aqui, outra ali, reescrevia tudo outra vez. Vagarosamente e escondendo o tremor de suas mãos agora cansadas. E eu, estupidamente jovem, diante do meu herói, não fiz nada. O homem que me fez ler, amar as pessoas respeitosamente, ser quem sou, perceber que o mundo pode ser bom, que me fez sua neta. Olho pra trás e ainda lembro do nosso livro. Do seu livro. Da história e roteiro que deveria seguir pra escrevê-lo. Os dois. Você, mesmo sabendo que não iria viver por muito mais tempo, tentava enganar a morte com um romance. E até hoje eu tento enganar a vida com o livro que não escreverei. Faltou-me coragem.

Ana Paula Magalhães
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