Textos

26 de julho de 2013

Miame, me

Era uma vez uma menina feita de amor. Os braços de amor, o torço pequeno de amor, as pernas grossas de amor, os pés iguais aos do pai de amor, o cabelo negro e fino de amor, as mãos “de pianista”, como dizia sua mãe, de amor, os olhos castanhos curiosos de amor, a boca que sorria alto de amor. Ela vivia assim, de amor. E por isso já havia se doído toda. Se doava, se ria, se abraçava, se fazia, se andava, se dormia, se acordava, se respirava, se beijava, se comia de amor. E muitas vezes ela quase morreu de fome. Quase. Mas quase não é verdade. Quase é mais uma invenção do homem pra matar todas as coisas mágicas que existem antes do abrir dos olhos. É aquele momento ínfimo entre o estar vivo e o morrer. Quase é seco. Como o estampido de um tiro que abre a cabeça do suicida. “Fulana quase foi feliz”. E porque ela já havia se machucado tanto, pensava que deveria ser igual aos outros: metade amor, metade quase. “Não se vive só de amor”. Quanta contradição numa só frase. E isso o resumia. Era a gramática gerativa da sua existência. Não se vive. Só de amor. Não, só de amor se vive. Tudo uma questão de pontuação, de colocar o verbo depois do substantivo. E era assim que fazia a leitura dos lábios dele, da sua boca com um único dente torto e que ela amava cheirar quando ele chegava da rua depois de uma ou duas cervejas, da barba agora bem aparada e que a espetava todos os dias, como o espinho fino que entrava no seu coração a cada foto batida. Mais um espinhozinho. E lia o que ele havia escrito antes de entrar no avião de primeira classe. Não existe ligação alguma do bilhete com a noite anterior. Nenhuma. Nada. E vazio ela sabia que existia. E queria ser a fuinha da piada interna dos dois. Daria tudo pra ter nascido uma fuinha, um esquilo, uma árvore, o cachorro bem cuidado do vizinho, só pra não viver de amor.

 

Imagem: Judith Clay

Ana Paula Magalhães
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