Textos

19 de outubro de 2015

Não somos tão jovens

“Somos tão jovens, tão jovens, tão jooooovenssss”… Para você ver o nível do desespero. 2015 e estou escutando Legião Urbana. Criei uma playlist no Spotify que me faz lembrar dos meus 12, 13, 14 anos. Há muito tempo tinha essa idade. Hoje nem sei qual seria meu número. Biologicamente falando, ainda consigo enganar quando passo um pouco de base e rímel. Emocionalmente, já morri. Olho para o meu peito e observo meu sentimento como uma senhora aposentada e cheia de controle. Porque você sabe, se ainda fosse jovem, eu transbordaria de dor. Estaria suplicando por cada migalha de carinho que não ganhei nos últimos meses. Pediria demissão do meu emprego enfadonho só para escrever no meu diário — aqueles que a gente fechava com um cadeado ridículo — seu nome mais de mil vezes. Com uma voz infantil, vociferaria palavras de ódio e jogaria na sua cara todos os picolés que havia chupado para escrever “eu te amo” no palitinho. Eu beberia vinho sangue de boi e ligaria para sua casa no meio da madrugada, batendo o telefone na cara da sua mãe e rezando para que ela esquecesse de olhar a bina. Vestiria a mesma camiseta do Joy Division todos os dias e me comportaria muito mal na escola, tirando zero, mandando a professora à merda e repetindo de ano. Brigaria com toda a minha família na hora do almoço, sairia da mesa soluçando, fecharia a porta do meu quarto com muita força e ouviria Boys Don’t Cry madrugada a dentro. Acordaria num sábado de manhã com gosto de cabo de guarda-chuva na boca de tanta ressaca moral depois de dançar música lenta e beijar seu melhor amigo só para me vingar. Talvez até namoraria, casaria com ele. Só para fuder com você. Espernearia ao te ver dar as costas para mim debaixo do bloco, mesmo estando em frangalhos e te implorando perdão. Acharia que morreria e que nunca mais encontraria alguém assim tão neurótico. Ou que me amasse, mesmo sem segurar na minha mão pelo Park Shopping. Eu era jovem. Mas hoje, não. Atualmente, o máximo que consigo fazer é uma playlist. Talvez postar uma foto com um filtro deprê no Instagram, ou um post passivo-agressivo no Facebook. Meu coração envelheceu. Usa creme antirrugas. Cada veia que pulsa sangue para o meu corpo cansou de amor à conta-gotas. Dessa coisa de disse-me-disse. Da espera de um beijo, mesmo sem língua. A verdade é que não tenho mais tempo para faltas. Tenho pressa para viver as próximas décadas. Por favor, não me faça mais ficar acordada. Preciso dormir e recuperar o sono perdido da noite anterior. Afinal de contas, não somos mais tão jovens.

* Imagem: For All The Trouble, pintura de Simon Birch

Ana Paula Magalhães
Leia mais textos de Ana Paula aqui.