broder, Textos

30 de agosto de 2013

Peça

Fez tudo direitinho, mas mesmo assim a vida lhe virou a cara. Assim, sem mais nem menos, sem arrependimentos e, o que é pior, sem volta. Porque, às vezes, a vida é assim, um ignorar que só os que não dormem sabem. E não se consegue entender o motivo de alguns serem tão felizes e outros não. Lembrou do dia que passou com seu sorriso de meia boca pelo metrô lotado e viu um homem, crescido já, chorando. Um choro que doía na espinha, que lhe arrepiou a alma e a fez entristecer e ter vontade de abraçar aquele estranho com lágrimas nos olhos. O que teria acontecido? Quais motivos fariam alguém daquele tamanho chorar assim em praça pública? Completamente nu. Recordou-se do emaranhado de lembranças que havia guardado em seu peito. E chorou com ele também. Abraçou-o, mesmo sem abraçar, e falou baixinho ao seu ouvido, como um anjo do filme do Wim Wenders, que a vida virava filme depois de um tempo. Esse era o segredo de tudo. A vida que vira filme. Não é mais realidade. É tudo parte de uma grande cena que dura meses, anos, décadas, séculos. Todos personagens da mesma peça sem graça.

 

* Imagem: adaptação de still de “Wings of Desire” (1987), filme de Win Wenders.

Ana Paula Magalhães
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