Textos

29 de novembro de 2013

Sorvete

No dia que a gente tava tomando sorvete num lugar feito pra se tomar sorvete, descobri o quanto não pertencemos. E olha que a gente tava se esforçando. Você tentando achar sentido ao ver uma criança sendo criança na sua frente. Eu desolada pelo fato de olhar a mesma criança e lembrar que meu instinto materno havia saído pra comprar cigarro e nunca mais voltou. (Acho que não te confessei isso, mas, no fundo no fundo, eu até queria ser mãe.) Ficamos ali, os dois sentados em um banco de plástico colorido evitando a luz irritante e branca que compunha o ambiente homogeneizado e enfiando na boca um do outro um pouco da normalidade que nos faltava. O bom é que no seu caso, você já se deu conta disso. E não se esforça pra ser diferente. Ou pra fazer parte. Eu, não que me esforce pra nada, mas vivo num limbo intermitente entre a mesmice de comprar pão todos os dias e a de ser. Ser o potencial do Homem. A “vontade de potência” da minha própria vida. Não ser o destino que escolhi errado, as pessoas enviesadas, a certa falta de amor próprio. Existe em mim uma vontade eminente de solidão. Um desajuste inquieto que nunca voltará a ser o que nunca foi. Minha liberdade aniquilada não pertence só a mim, mas a todos que me cercam e que prendo aos meus braços infantis. O embate matinal entre abrir os olhos ou me mortificar na cama vazia é crescente e dilacera de tanta dor… Não sei se conseguirei seguir assim, nesse disfarce que me faz estranha e, ao mesmo tempo, tão comum. Queria poder superar o meu próprio tédio e transgredir todos os meus falsos planos idiotamente mecanicistas. Como seria infeliz! Buscar a felicidade na infelicidade. A contradição dos conscientes. Justificar a existência por exatidão certamente é um atributo que não me pertence. Tenho medo do que me vem aqui dentro. Temo a verdade. Suspiro três vezes repetindo um mantra decorado na aula de yoga que nunca fiz e engulo outra colherada de sorvete. Você olha pra mim e sorri. Gosto quando você diz com os olhos o que já sei. Saímos dali e jamais nos encontramos.

 

Imagem: Lucia Franco.

Ana Paula Magalhães
Leia mais textos de Ana Paula aqui.