Textos

09 de agosto de 2013

Tipo

Era do tipo que na falta de receber mensagens interessantes, mandava email pra si mesma. Músicas, poemas, uma frase bonita, lembranças cotidianas, datas de aniversários, listas infindáveis do que não deveria esquecer ou do que deveria ser, o dia do casamento dos dois, as compras do mês, as novidades de uma loja barata, dicas de viagens que nunca fizera, uma receita de bolo, mesmo não sabendo cozinhar. Era do tipo que se não tivesse alguém por perto pra compartilhar sua pequena existência, inventava pra si um universo mágico e que ninguém entrava. E vivia achando que não era entendida. Pensava mesmo que ninguém sabia viver e que as pessoas haviam esquecido o que era amor. Mas mesmo assim escrevia pros seus amigos dizendo o quanto os amava e que a falta deles a machucava muito. Também era do tipo que não tinha mais paciência e que se irritava facilmente. Muitas questões a deixavam louca. Não entendia porque todos queriam saber de coisas tão insignificantes, se o mais importante era o que não era dito. Mas tudo isso durava muito pouco, já que era do tipo que se distraia facilmente. Voltava a fazer o que havia começado, mas nunca havia de terminar, porque se arrependia e fazia tudo outra vez. Era do tipo que ouvia a mesma música triste um milhão de vezes e chorava bem baixinho lembrando dos tempos em que tudo era muito menos complicado. Lembrava do passado e achava que era a criatura mais infeliz da terra, porque o mundo já não era mais mundo. E sim essa coisa cheia de gente egoísta. Era do tipo que jurava pra sempre que nunca mais iria falar palavrão, mas que depois de cinco minutos esquecia todas suas promessas infantis de ser alguém mais legal e esbravejava tudo outra vez. Era do tipo que não era fácil, mas que morria de amor pelos outros mais do que os outros por ela, porque era assim que ela sabia amar: morrendo.

 

* Imagem inspirada em colagem de Ben Giles.

Ana Paula Magalhães
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