Textos

27 de janeiro de 2014

27 de janeiro

Certa vez uma colega de trabalho contou uma anedota interessante. Seu filho menor – em pleno vapor na fase do “por que?” – questionou com muita seriedade: Mãe. O que é solidão?

Minha colega buscou com muita paciência (o que não era difícil, pois sempre foi serena e articulada) explicar o que seria solidão. Falou sobre a experiência humana de sentir-se só. Explicou com uma infinidade de exemplos, e ficou sem resposta ao ouvir a conclusão tão inteligente que seu filho trouxe em poucas palavras.

“Então solidão é uma mãe sem seu filho.”

Neste mesmo dia, há um ano, eu não conseguia pensar em outra coisa enquanto assistia aflita à cobertura jornalística de uma tragédia. Falava-se em números, cada vez mais assustadores. Em seguida, cada dígito trazia uma história triste e avassaladora.

Solidão é uma mãe sem seu filho.

Eu nasci em Santa Maria. Não morei lá muito tempo, mas é uma cidade que tem o carinho da minha família. Minha mãe também é santa-mariense. Ela foi aluna da tradicional universidade federal (UFSM). Lecionou nas principais escolas e cursinhos da cidade. Ajudou tantos outros adolescentes a ingressarem nos seus cursos de escolha. Sentiu orgulho dos alunos que seguiam sua mesma trajetória, repetindo as rotinas e ritos daquela cidade universitária que sempre pulsou vida e juventude.

Santa Maria hoje existe de uma forma diferente. É o vazio das mães da Praça Saldanha Marinho. É a ausência nos corredores da UFSM. É a lembrança de quem perdeu tanto. Santa Maria é uma cidade que vai se reerguer, mas sem amenizar esta saudade. Sofre da solidão na sua forma mais crua, conforme a definição de uma criança que consegue despir todas as sutilezas e enxergar a mais pura verdade.

Santa Maria é uma mãe sem seus filhos.

 

 

* Imagem: Jornal Zero Hora.

Ana Paula Rocha
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