Textos

24 de agosto de 2012

Gauche

Drummond teve “um anjo / desses que vivem na sombra”. Chico Buarque teve “um anjo safado / o chato de um querubim”.

Sempre achei tão legais esses avisos prévios, pois quando eu nasci, não tive visitas, memorandos ou sequer um bilhetinho simpático, daqueles “só para dar um toque”.

Meus caminhos tortos na vida vieram desanunciados, no atropelo, e tudo em tempo real. Desconfio ser a sexta-feira treze, que culturalmente é dia de má sorte e, possivelmente, assustou o mensageiro designado para cobrir a minha vinda ao mundo.

Aviso ou sem aviso, meu aniversário já abusou do direito de ser torto. Teve acidente de carro, pé quebrado, morte de escritor favorito e festança caríssima de quinze anos cancelada em cima da hora (sendo moradora dos EUA na época, as torres gêmeas atingidas dois dias antes esvaziaram o ânimo de qualquer festividade).

Mas todos estes ocorridos – sejam eles pertencentes ao meu mundinho ou compartilhados com a população mundial – nunca me fizeram culpar o dia treze. Eu acredito que toda tragédia descabida e destruidora (do tipo que chacoalha a vida por um segundo ou para sempre) tem a mesma resposta seca do universo: “não é nada pessoal”.

Por que eu e não ela? Não é nada pessoal. Por que, de todas as pessoas, logo ele? Não é nada pessoal.

Que espaço resta para questionamento, argumentação ou refuta? Nenhum.

Não se pode questionar, argumentar ou refutar o que não foi dito.

Na sua distribuição de desgraças, o universo é frio e aleatório, nunca vem com um arquivo explicativo de 16 lâminas pontuando um histórico de merecimento e salientando os porquês.

Logo, não era o dia treze. Logo, a birra não é comigo.

Ufa.

 

* Aquarela criada pela própria autora, Ana Paula Rocha, que, além de escrever, tem outros talentos menos conhecidos, como este, que nós vamos adorar trazer aqui.

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