Textos

31 de agosto de 2012

Percurso

Foi a bordo de um taxi porque estava chovendo. Mas, mesmo que não estivesse, tinha dias de mini-rebeldia quando fazia questão de mostrar ao mundo (e a ninguém) que conseguia sim dispor de algumas cifras pelo capricho que é o conforto. O taxi passou mansinho por uma praça onde as pessoas administravam (com mais ou menos destreza) a chuva e seus cachorrinhos de estimação. Praça movimentada por guarda-chuvas e coleiras. Tinha um carinho especial por quem vestia pijama e pantufa com algum casacão por cima. Gostava de pessoas que tornavam espaços públicos uma extensão do seu quintal, algo familiar e absolutamente normal. O sinal vermelho lhe rendeu alguns segundos pensando em todas as viradas que resultaram neste destino: ela num taxi e um senhor caminhando com seu cãozinho em uma praça chuvosa. O que a trouxe até aqui? Em alguma esquina, ela deveria ter dobrado, mas, ao invés, passou reto, e pronto, se encontrava com scarpin preto e uma pasta cheia de papéis, ao invés de caminhando na chuva com a companhia de um bichano.

Lembrou do pai, que nasceu em uma cidade fronteiriça, escorregando para o Uruguai. Um lugar do qual você provavelmente nunca ouviu falar, que dirá colocou os pés algum dia. Lembrou do calendário que o pai criou aos 15 anos, quando ainda era cadete do exército. Ele contou esta história uma vez, sobre como fazia a contagem dos dias, um por um, até o dia que ganhava uma dispensa por duas semanas, no final do ano. Esquema semelhante aos de presidiários contando tracinhos na parede. Ele batizou este calendário de “H.S.” (Haja Saco). Um recurso para lidar com dificuldades nos alojamentos frios, onde se abrigavam tantos outros meninos também jovens e também assustados.

Ela copiou a metodologia, contava dias em um calendário improvisado no final da agenda. Mas era uma contagem despropositada, pois não tinha objetivos grandes e claros. Não tinha aspirações como as outras pessoas têm. Contava 22 dias. Começava novamente. Contava mais 39. Comprava um sorvete no dia 16 para comemorar os 16 dias de contagem. Achava “Haja Saco” um excelente nome para um calendário.

Naquela tarde, sua assistente havia dito baixinho antes de iniciar uma reunião “A trança do seu cabelo…” “O que tem?” “Está desmanchando” “Deixa assim, eu não ligo.” “Não liga para o seu cabelo?” “Não ligo para nada.” E foi assim mesmo, com o cabelo meio desgrenhado, com a assistente sem entender direito. Antes, ela costumava cuidar para não dizer este tipo de coisa em público. Depois, ela esqueceu.

Saiu da memória e voltou para o presente quando o carro parou. “O endereço é aqui, dona.” Não parecia ser aqui. Ela não sabia o que esperar, mas com certeza não era isso. Ela demorou uns segundos antes de estender a mão com o dinheiro, demorou o suficiente para merecer um comentário impaciente. “Não era onde você queria chegar?” Ela bateu a porta do carro sem responder.

Era aqui. Não era?

 

* Ilustração criada pela própria autora.

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