Textos

01 de julho de 2015

15 escritores judeus que todos deveriam conhecer

A ficção é o poder restante dos oprimidos. A ficção é o artefato de dizer o indizível, imaginar o inimaginável e contestar o proibido. A escrita é esse recurso filho do incômodo, sutil, introspectivo, lento e portátil, após a destruição dos templos. Vai-se a política, resta a utopia.

O lugar do lembrar e do saber não é a cabeça. Equivoca-se a anatomia. O *cór*, coração, é onde habitam. Para aí as palavras são dirigidas.

Aqui 15 preferidos, pessoalíssimamente. Foi duro. Quis judeus bem judeus em algo e cores distintas. Portas para serem abertas, afetivas.

Sejam bem-vindos.

:וְאֵלֶּה, שְׁמוֹת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל

 

01. Nachman de Bretslav

Nascido na Ucrânia no século XVI, Nachman foi um dos maiores rabinos de sua época. Sua obra de ficção Sipurei Ma’asiyot (Histórias dos Feitos de Antes) é uma coletânea de contos que habilita o acesso a ideias impressionantes, tendo sido objeto de estudo de gerações. Para mim, sua escrita tem uma característica Kubriquiana, de onde se sai com uma emoção que é difícil dar um nome.

 

02. Isaac Bashevis Singer

Bashevis Singer disse que preferia escrever para as crianças, por que elas não davam a mínima para a crítica. Seu conto mais famoso, Gimpel, o Tolo nos faz atravessar a nossa própria tolice e finalmente nos reaproximarmos da grandeza de ser tolo.

Sempre capaz de nos fazer ver a perspectiva que não vemos, de dialogar com os fantasmas que nos atormentam — e até criar simpatia por eles, o movimento por onde Bashevis nos transporta na sua escrita é inclusivo, piedoso e graciosamente humano. Não cabe intolerância.

 

03. Clarice Lispector

Mesmo sendo considerada por muitos uma das escritoras judias mais importantes depois de Kafka, pouco se fala do judaísmo de Clarice. Mas é daí que vem muito do seu mistério. Seu traço (palavra) e seus traços (cara), ao mesmo tempo inconfundíveis, atemporais e indefiníveis, nos trazem à fronteira do entendimento, território tão dela e tão judaico. Sempre amei Água Viva.

 

04. Franz Kafka

Não recomendo ninguém ler Kafka numa fase difícil da vida. Kafka definiu o tormento do Ocidente, previu com cores proféticas as catástrofes do século XX e morreu no anonimato. Apesar de ser conhecido por seus sofrimentos, sua frase “Messias virá quando não seja mais necessário” é uma assertiva das mais otimistas dentro do judaísmo.

 

05. Primo Levi

Uma coisa é você visitar o Holocausto em um filme do Steven Spielberg, outra coisa é você entrar lá com um coração latino. Primo Levi, nascido na Itália, criou o retrato mais contrastante do monstro absurdo do holocausto, sem uma gota de rancor. Seu livro É Isto um Homem? partiu meu coração.

 

06. Abraham Joschua Heschel

Rabino-rockstar de sua geração, contra a guerra do Vietnam e amigo de Luther King, Heschel escreveu um livro incrível e vários livros bons. Às vezes citado por filósofos, às vezes por teólogos, sua escrita lírica e aberta ainda nos inspira. O Shabbat é o livro que recomendo, muito lindo.

 

07. Hayim Nachman Bialik

Considerado o escritor do renascimento nacional de Israel, seu trabalho é de um calibre impressionante. Organizou e compilou grande parte do Midrash (narrativas de exegese judaica) e escreveu poesia, conto e novelas. Seu conto A Lenda dos Três e Quatro me habita há décadas e consta na coletânea A Trombeta Envergonhada. Recomendo.

 

08. Emma Lazarus

De origem portuguesa, Emma Lazarus teve seu soneto The New Colossus emplacado aos pés da Estátua da Liberdade. Inconformada com o antissemitismo de sua época, especialmente na Rússia, escreveu livros, peças e chegou a sugerir ideias que só apareceriam anos depois, com o advento do sionismo.

 

09. Nilton Bonder

Se há uma voz importante no judaísmo brasileiro contemporâneo, ela é a do rabino Nilton Bonder. Seu livro-manifesto A Alma Imoral virou monólogo de teatro e suas “cabalas” aproximaram muitos ao judaísmo e à literatura judaica. O rabino se dedicou, inclusive, a pensar nas consequências espirituais da corrupção (tema brasileiríssimo) em O Crime Descompensa e a abrir as portas do sempre em Sobre Deus e o Sempre (meu preferido).

 

10. Hannah Szenes

Hannah Szenes, nascida na Hungria, emigrou para o que então seria Israel em 1939. Em 1944, ela e outros companheiros pularam de paraquedas na fronteira da Hungria em uma missão desesperada para salvar os judeus que ali se encontravam. Sua missão não obteve sucesso, apenas um poema escrito no interior de uma cela. Seu poema mais famoso, Caminhada até Cesaréia, fala sobre o desejo que certas coisas nunca terminem, como sua poesia.

 

11. Abraham Ibn Ezra

Desde uma canção de John Lennon até uma cratera na lua, a influência desse sábio da Espanha muçulmana se faz presente. Apesar de ter se dedicado à matemática, filosofia, exegese, astronomia, linguística e astrologia, a poesia era a arte franca da qual ele carregava um dos mais importantes nomes de Sefarad, ao lado de Yehuda Halevy, Moisés Ibn Ezra e Ibn Gabirol. Qualquer um que deseje visitar o judaísmo cosmopolita, polifônico e às vezes até secular da Espanha, tem em Ibn Ezra um acesso generoso.

 

12. Naomi Klein

Uma das vozes mais contundentes da nossa geração. Naomi Klein é herdeira direta de Amós, Marek Edelman, Leon Davidovich Bronshtein e tantos outros incansáveis perseguidores da justiça. O judaísmo profético esclarece que o ritual não importa enquanto não incorrer em uma prática ética. O verso bíblico diz: “Justiça justiça, perseguirás”. Naomi persegue, seja em seus livros, seja em suas sempre acertadas entrevistas.

 

13. Yehuda Amichai

Judá Meu-Povo-Vive é a tradução do nome escolhido por esse poeta nascido na Alemanha em 1924. Yehudá lutou em diversas guerras com a mesma cara: sua “cara de inimigo, cara de amante”. É considerado um dos poetas mais populares de Israel e é fácil desfrutar em sua poesia muitos dos anseios da região, porém com uma tonalidade leve, humana e próxima.

 

14. Alen Ginsberg

Quando o cara vai para a TV e prefere recitar um poema que escreveu sobre o efeito de LSD ao invés de responder à pergunta-polêmica do entrevistador, ele já ganhou o nosso coração. Ícone do movimento Beatnik, Ginsberg teve a sorte de ter sobrevivido aos momentos mais difíceis de sua vida. Nos deixou um uivo longo, áspero, com um epílogo mágico. Quando se aventurarem, não deixem de ler o Footnote to Howl. Ele diz: “o cu é sagrado”. E é.

 

15. Moacyr Scliar

Muito antes de ter uma ideia saqueada por Holywood, Moacyr Scliar equilibrou em uma escrita farta sua herança judaica e sua identidade brasileira. Às vezes falava sobre Salomão, às vezes falava sobre a ditadura. Propôs uma mulher que escrevera a bíblia, mas com passagens cheias de sacanagem dignas do nosso cinema. Não dá para acreditar que era, além de tudo, professor de medicina — um enfarto para as mães judias.

 

Outros autores judeus que também merecem ser mencionados: Saul Bellow, Maurice Sendiak, Nadine Gordimer, Art Spiegelman, Etgar Keret, Paul Auster, Philip Roth, Hannah Arendt, Will Eisner, Isaac Asimov, Yehuda Halevy, Woody Allen, A.B. Yehoshua, Anne Frank, Gertrude Stein e Sholem Aleichem.

 

* Imagem: da esquerda para direita, de cima para baixo, o mosaico traz fotos e representações dos autores Nachman de Bretslav,  Isaac Bashevis Singer, Clarice Lispector, Franz Kafka, Primo Levi, Abraham Joschua Heschel, Hayim Nachman Bialik, Emma Lazarus, Nilton Bonder, Hannah Szenes, Abraham Ibn Ezra, Naomi Klein, Yehuda Amichai, Alen Ginsberg e Moacyr Scliar

Artur Benchimol
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