Textos

02 de Abril de 2015

Escalas

Depois de morar cinco anos nos Estados Unidos, uma coisa que se aprende é a lidar com escalas. Com um mínimo de atenção, é possível verificar que, para os americanos, o que mais importa são os números.

Minhas críticas a essa maneira de viver são muitas. Da falta de magia nos esportes do Tio Sam — futebol americano é basicamente uma disputa por uma régua — à falta de entendimento na política externa, os números acabam reduzindo tudo (e nos reduzindo) a um binarismo (sim e não — 0 ou 1) ou a uma comparação (acima ou abaixo da média). Separam tudo o que for possível em escalas de vencedores e perdedores. As consequências são, em muitas searas da vida, catastróficas.

Os exemplos são muito interessantes e eu poderia ficar reclamando deles por muitas linhas mas, sendo bem honesto, acredito que uma perspectiva diferente da nossa, na maioria das vezes, pode nos ajudar a ver o que não vemos*. E é pra lá que eu vou. Ihi!

Nós, brasileiros, temos nos comportado como reclamões nos últimos dois anos — seja você um amiguinho de esquerda ou um amiguinho de direita. Os debates desbocados têm surgido a torto e a direito no feed nosso de cada dia e os dados não têm aparecido. Nem como coadjuvantes.

Tudo bem que a tradição tupiniquim seja mais “continental”, mais “poética”, mais “qualitativa”, mas será que a gente pode espiar os números um pouquinho?

Por exemplo, foram 500 mil mortes violentas nos últimos dez anos de democracia. A guerra civil espanhola matou a mesma coisa. O conflito na Palestina matou 9.953 desde o ano 2000. Nos três episódios, se formos ver a quantidade de mortos por 100 habitantes, temos os números 1,9 (guerra civil espanhola), 0,2 (violência no Brasil) e 0,1 (Palestina). Não me parece um lugar comum que o Brasil seja duas vezes mais violento do que a Palestina.

Trata-se de um exemplo meramente ilustrativo. Muitos outros assuntos podem usufruir da nossa atenção numérica: modelos de mobilidade (devemos comprar um carro?), saúde (fumantes deveriam ter medo de avião?), desigualdade social, economia, gênero etc.

Esse último tem me chamado a atenção. Vejo muita gente acertadamente preocupada com o conteúdo que aparece na rede e nas conversas, mas pouco atenta aos números: mulheres são aproximadamente 50% da população e 10% da câmara dos deputados (!), de acordo com alguns estudos, ganham 30% a menos e ainda são vítimas de milhares de assassinatos anualmente.

Consultar e expor números pode criar um debate melhor. E não temos mais desculpas: Google e calculadora todo mundo tem.

 

Nota:

* “Quem não enxerga não sabe o que não vê porque quando sabe o que não vê de alguma forma já está vendo. Já quem vê pensa que tudo o que vê é o que é, porque quando sabe que tudo o que vê não é tudo o que é, de alguma forma já está vendo o que não vê.” BONDER, NILTON

 

** Imagem: Guernica, de Pablo Picasso (1937).

Artur Benchimol
Leia mais textos de Artur aqui.