Textos

19 de Janeiro de 2016

Se estamos juntos

Olho a ponta do meu dedo. O dedo é assim: indica, identifica e edifica. A vida pede do dedo que escolha e produza, o burocrata pede dele seu registro. Muitas palavras, erros e acertos sairão também dele e nele estão especificidade e evolução genética. É um monumento humilde a toda uma ancestralidade que desconheço.

Carrego ele comigo para todos os lados. E, apesar de óbvio, sou muito feliz que nunca o tenha deixado perdido. Conservo-o como um tesouro e nele me abrigo.

Não só com o dedo me deparo. Em cada célula do meu corpo, sei que há código. Há referências às primeiras bactérias e também ao cosmos. Meus genes respondem a instintos impressos por atitudes anteriores, misteriosas, que preconizam meus passos e surpreendem ao não serem entendidas completamente. Me conectam com formas de vida, com meninas e mulheres antigas, com homens perdidos, com pessoas sofridas e amadas. Contam histórias de amor, de fracasso, de reconciliação. Carrego esse texto comigo, apesar de não saber lê-lo completamente. Mas reconheço a sua maravilha e convivo cotidianamente, através dele, não só com a humanidade que possuo e da qual faço parte, mas também com todos os seres vivos. Nele está de onde me distanciei dos ácaros, árvores e pássaros, onde optei por não poder voar, onde saí, pela primeira vez, da água e do lugar.

Além das células, tenho moléculas. São combinações minúsculas de oxigênio, ferro, nitrogênio e carbono. São partes ínfimas de água, poeira, fogo e vento, gestadas no ventre do planeta Terra, através do tempo. Com elas, me emociono com o oceano, me distraio com o vento, mergulho no silêncio e sou hipnotizado pelo fogo. Concedo a lágrima e o suor de volta à terra e entendo o que há, na morte, de retorno.

Finalmente, cada molécula é feita de átomos, que são por sua vez formados por outras infimidades que, honestamente, desconheço. Mas não procuro ignorar o fato de que o único celeiro do átomo é o núcleo constantemente explosivo das estrelas. E através dessa ideia (científica), permito-me a gratidão de, em algumas noites, vê-las. São como primas, são como irmãs, são manifestação anterior da possibilidade de meus átomos, minhas moléculas, minhas células e meu dedo.

Volta e meia me perguntam se me sinto em casa, se vivo encontrado. Vem do fato de morar numa cidade distante do porto abençoado onde cresci, afastado da casa primeira, da família e dos amigos. E, é claro, não é todo dia que tenho calma. Tem dias de saudade e correria. Dias onde meu tempo não cabe. Mas, assim, numa tarde larga e farta de paciência, ao olhar meu dedo, tenho a certeza:

Se estamos juntos? Todo o tempo.

Que importa se é na cidade ou se nossos átomos se esbarraram no núcleo de alguma estrela? Se estivemos juntos nos breves encontros de nossos antepassados ou se nossas células foram vizinhas nos peixes dentro d’água?

Somos coabitantes de toda alteridade. Nascemos com a possibilidade de amar qualquer astro ou qualquer besouro. Nascemos, principalmente, com a capacidade de amar o outro, nossos diferentes e quiçá até Deus. E isso tudo porque estamos inseridos na eternidade através do milagre incessante e incansável do tempo que dispensa qualquer adeus.

 

* Ilustração de Mariana Salimena para Confeitaria

* * Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Artur Benchimol
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