Textos

27 de Janeiro de 2014

A menina de olhos tristes

Seis e meia da manhã. A menina de olhos tristes desperta e se arrasta pelo combo quarto, banheiro e cozinha. Bebe água em modo automático, alimenta as gatas e bate a porta. Na rua, imagina que as pessoas estejam pensando por qual motivo ela caminha com olhar tão perdido. Sem dar bom dia, sem olhar pro sol.

Ela poderia caminhar até o fim da rua, pisar na areia convidativa, entrar no mar fresco da manhã e pegar algum navio imaginário pra outro mundo. Ela poderia, mas segue seu rumo.

Aos 17, ela não acreditava no amor. Hoje, ele transborda por seus olhos, fazendo vagar seu olhar, inchando seu coração latente. Era um crime, naquela época, não acreditar. Mas era uma rebeldia bem fácil de levar — divertida, até.

Admira o percurso mais verde e bonito do caminho e lembra que há beleza no mundo — beleza essa que tristeza alguma consegue anular. E absorve aquilo com o olhar, alimentando a alma, respirando fundo, pra começar outra vez. É só um dia ruim. As lágrimas secam com o vento. Há beleza no mundo, afinal.

 

* Imagem: Amyisla Mccombie

Carolina Lancelloti
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