Textos

25 de setembro de 2012

A menina e o túnel

Julho. Um Rio de Janeiro chuvoso. Uma viagem de férias com minha amiga brasiliense, Gabi. Eis que, inevitavelmente, entramos em um dos diversos túneis espalhados pela cidade. E nele ficamos, e ficamos… Até que Gabi comentou, aflita: “Nossa, esse túnel não acaba? Está me dando agonia!”. Brasília é plana, esqueci. Achei engraçado sua aflição, porque os túneis sempre fizeram parte da minha vida e, pra mim, estar ali à espera da luz final era tão natural quanto pisar na areia. Tentei explicar que não havia nada demais em túneis, mas não adiantou de muita coisa.

Pra mim, túneis são quase meditativos. E é impossível passar por um deles sem acessar às minhas lembranças da infância, da época em que os túneis eram ainda mais misteriosos. De estrutura mais precária, ainda tinham aqueles ventiladores gigantes. Eu me sentia em outra dimensão. Passar por um túnel fazia parte de quase todos os itinerários e eu me lembro de olhar pra cima e aproveitar aquele caos, aquele barulho, aquele vento; observando cada detalhe das paredes rochosas e me deixando viajar naquela leve escuridão. Aos poucos, o carro ia acompanhando as curvas, e via-se tudo iluminar. Eu ficava olhando fixamente para o arco, como se fosse nascer de novo.

É isso. Deve haver de fato alguma energia muito forte ali, que nos faz abrir os olhos e a mente quando passamos para o outro lado. É uma sensação que todo mundo deve ter ao menos uma vez. E, ainda que a agonia da Gabi tenha causado desespero, é exatamente dessa sensação que estou falando. Sentir-se vivo. A ansiedade da espera e o alívio da chegada.

 

* Texto escrito para a 11ª edição da e-mag aLagarta

Carolina Lancelloti
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