Textos

24 de abril de 2014

L’enfant terrible

Quando começamos a estudar moda, é inevitável: um dos primeiros nomes que escutamos é o de Jean Paul Gaultier, aniversariante do dia (o estilista francês nasceu em 24 de abril de 1952). Isso se você já não ouviu falar dele anteriormente. O trabalho desse icônico designer transcendeu a moda e é bem provável que muitos tenham esbarrado em suas criações em outros ambientes. Quer uma rápida referência? Pense no sutiã de cone que Madonna usou em sua Blond Ambition Tour.

É inspirador acompanhar um estilista passeando por tantos conceitos e universos e, ainda assim, vê-lo manter uma estética forte em suas coleções. Muitos designers não consegue sair de sua própria bolha, mas Gaultier parece ter essa sede de mundo e isso o torna único em tudo o que faz, de programas de televisão, como o Eurotrash, até figurinos de cinema.

Assim como muitos estilistas da sua geração, Gaultier começou a desenhar croquis muito jovem, ainda adolescente, a partir de revistas de moda. Sem tantas referências e tendo seu sonho como motivação, ele enviou esses desenhos para alguns estilistas de Paris e, como era comum na época, foi apadrinhado — e por ninguém menos que Pierre Cardin, com apenas 18 anos.

Desde sua primeira coleção individual, em 1976, o designer foi apelidado de enfant terrible, o bad boy da moda francesa, em função de seu estilo irreverente, rebelde e provocativo (muito mais comum nos designers britânicos). Gaultier se tornou mestre da alfaiataria para os homens, e também o estilista que mais bem trabalhava com as curvas do corpo feminino. Tive a oportunidade de ver, vestir e fotografar um vestido-casulo criado por ele. A estrutura da peça era inacreditável: ela abraçava o corpo como nunca experimentei antes em nenhuma outra roupa.

Mulheres que amam marcar presença, seja nas festas, nos palcos ou nos red carpets (entre algumas fãs de seus vestidos, estão Naomi Watts, Marion Cotillard e Nicole Kidman), são apaixonadas por suas criações, que definitivamente, nunca deixam ninguém passar despercebido. Além de Madonna, o estilista também trabalhou com Kylie Minogue em sua X tour, em 2008. Performance é com ele mesmo: é só assistir a alguns de seus desfiles, que sempre trazem alguma surpresa para o público.

O curioso é que, apesar da forte presença do poder feminino, das curvas e do feitiche em suas criações, Gaultier também explora o andrógino. Seus modelos masculinos já desfilaram de saias e a coleção “Wardrobe for two”, para a primavera de 1985, trouxe a androginia através de um tributo à Frida Khalo, com looks icônicos para sua carreira.

Em 2003, ele virou diretor criativo da tradicional Hermés, onde ficou até 2011. Em seguida, foi convidado para ser diretor criativo da Coca Cola Diet — a parceria, claro, foi muito bem sucedida. E não para por aí: de perfumes à linha infantil, Gaultier expande seus negócios por onde sente vontade.

Seus trabalhos mais recentes fora do mundo da moda podem ser vistos também no cinema, em filmes como O Quinto Elemento, de Luc Besson, Má Educação e a A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar.

Gaultier nunca é boring. E você pode até não curtir tanto a estética, mas se abrir um pouco a mente, será sempre surpreendido pela história que ele conta, seja nos filmes, na passarela, nos palcos… Um camaleão, com certeza, desses criadores que não se encontra mais por aí.

Quem estiver em Londres entre abril e maio, pode conferir suas coleções de perto na exposição Jean Paul Gaultier: Be My Guest , que rola na Fashion Space Gallery, da London College of Design.

 

* Imagem: Gaultier para Coca-Cola

Carolina Lancelloti
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