Cinema, Textos

03 de agosto de 2012

Lions, tigers and bears, oh my!

Demorou algum tempo até eu formular, em inglês e com todo o cuidado, as perguntas que gostaria de fazer a Andreas Deja. Afinal, entrevistar um ídolo nem sempre é fácil, principalmente quando sua história se confunde com muitas de suas criações. O polaco-alemão passou 30 anos na Disney, criando e animando alguns dos personagens mais icônicos da minha geração.

Apesar de não me identificar diretamente com os personagens criados por ele (afinal, como toda menina eu sempre interpretava a princesa rebelde nas brincadeiras de faz de conta), a admiração se deu em função da paixão de Andreas pela animação. Uma paixão que eu entendo desde que assisti a A Pequena Sereia no cinema (meu primeiro filme), aos dois anos de idade. Trabalhar com animação era, inclusive, um dos meus sonhos quando mais nova, desde quando comecei a desenhar.

Assim como Deja, meus primeiros traços foram influenciados pela Disney: “Eu não consigo me lembrar de algum momento da minha vida em que eu não desenhasse; sempre o fiz: no jardim de infância, na escola… Primeiro, eu desenhava personagens da Disney, e depois eu comecei a desenhar coisas “reais”, como plantas, meus animais de estimação, minhas irmãs e meus pais”.

Deja aparece em quase todos os making of dos filmes da Disney, mesmo aqueles dos quais não participou, como clássicos produzidos nas décadas de 40 e 50. Isso porque o artista é também um estudioso da animação.

Em seu blog, o Deja View, ele analisa e disserta sobre vários filmes, animadores e artistas plásticos que admira. “Em termos de desenho, eu gosto Heinrich Kley, TS Sullivant, Wilhelm M. Busch e Peter DeSeve, para citar alguns. Meus ídolos na animação são todos os grandes animadores da Disney, mas eu também admiro o trabalho de animadores da Warner Brothers e MGM durante a ‘Era Dourada’ da animação em Hollywood.”

O blog é um prato cheio para fãs e aspirantes a animadores, contendo também esboços e trabalhos solo de Deja, que hoje produz curtas por conta própria. “Eu estou trabalhando em alguns curtas, o primeiro deve ter em torno de 20 minutos. Será todo em animação, mas o estilo será bem mais solto e rústico do que se está acostumado a ver em desenhos à mão convencionais”.

Um de seus primeiros filmes na Disney foi Caldeirão Mágico, um longa perdido no tempo que não trouxe tanto retorno na época, mas que deu a Dejas a oportunidade de trabalhar lado a lado em um cubículo com o diretor Tim Burton, antes de ser “o” Tim Burton. Depois, participou do grande retorno da animação no final da década de 80, fazendo parte de clássicos como A Pequena Sereia, A Bela e a Fera e Aladim, criando, respectivamente, o Rei Tritão e os vilões Gaston e Jafar.

Os vilões, inclusive, são destaque no trabalho do animador e deixaram um grande marco na vida dos telespectadores mirins da época (quem não chorou quando Scar tentou matar Simba, matando em seu lugar Mufasa, na angustiante e triste cena dos antílopes em O Rei Leão, que atire a primeira pedra!). “Eu adorei trabalhar com todos esses três vilões que produzi na Disney. Vilões sempre proporcionam um peso para a história, eles querem mudar as coisas para o seu benefício. Geralmente, a “atuação” deles é muito mais versátil do que você poderia ver em heróis ou princesas. Mas depois de ter feito três seguidos, já era hora de mudar e tentar algo diferente.”

Quem desenha vive em um mundo paralelo, mais colorido e instigante. “Eu gosto de animação não só como uma profissão, mas como um estilo de vida. Observar o mundo ao seu redor e interpretar aquilo em um movimento gráfico caricaturado é sempre fascinante”, comenta Andreas. Realmente, quando se aprende a desenhar, aprende-se também a importância de tornar-se um observador 24 horas por dia, afinal, todo artista precisa de um toque de curiosidade, característica que se confirma quando peço para Deja se descrever em três palavras: “Otimista, de natureza amorosa e curioso”.

Quando pergunto do que ele mais gosta em seu trabalho, Deja responde: “Quando eu termino de desenhar uma cena e eu a vejo em full motion pela primeira vez, é sempre um momento muito especial”.

É de momentos especiais que nasceram alguns dos filmes mais bonitos de todos os tempos. Talvez a beleza da animação se dê, justamente, pelo fato de ser criada por seres reais, com sentimentos reais, que se misturam com um mundo mágico para resultar em uma arte que perdura por gerações.

 

* Entrevista para a edição 9 da e-mag a Lagarta

Carolina Lancelloti
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