Textos

02 de junho de 2014

Malévola

A versão de A Bela Adormecida de Walt Disney não foi feita para a minha geração. Ainda que nossas princesas tivessem finais felizes tradicionais (em direção ao pôr do sol com príncipes à tira colo) já eram rebeldes (Bela e Ariel que o digam). A vida já tinha mais emoção, por assim dizer. Logo, era natural que Aurora me causasse bocejos e que a parte mais interessante da animação fosse a troca de cor do vestido dela — ou quando Malévola entrava em cena. Toda aquela presença, força e liberdade de ir e vir… Era aquilo que eu queria ser.

Malévola logo se tornou minha vilã favorita e uma personagem muito querida. E é interessante ver que foi assim para muitas meninas de personalidade forte, que sempre tiveram interesse pelo outro lado das histórias. Meninas que nunca viram o lado negro como, necessariamente, ruim. Apenas… diferente. Assistir à Malévola nessa nova versão foi como preencher algo no meu coração. Foi como sussurrar pra mim mesma “eu já sabia!”. Ela nunca foi má. Ela apenas foi viva.

Afinal, ninguém cresce ou evolui anestesiado, cantando em meio aos passarinhos, impecavelmente vestida e se apaixonando à primeira vista. Há algo de errado nessa fórmula. E as próximas gerações vão se libertar desse mito da mulher perfeita (ou do casal perfeito e imaculado) no pedestal.

Aos poucos, a Disney vem se adaptando à nova era, ainda que de seu jeito; ainda que para não perder espaço (ou bilheteria); ainda que zombe de si mesma e precise reduzir o príncipe a um vilão, ou um casal a um mero coadjuvante e sem casamento obrigatório no final feliz.

Os tempos, finalmente, estão mudando. Poder viver essa transformação, fazer parte dela, é realmente emocionante, principalmente para uma garota. A Disney, enfim, decidiu ensinar que nossos modelos — as princesas lindas que sempre quisemos ser — podem também ser guerreiras (como em Valente), sujar a camisa (sem ser lavando e passando, claro) e ser independentes (como em A Princesa e o Sapo ou em Frozen). Liberdade é a palavra, na verdade. Porque você pode ser o que quiser: casada, solteira, mãe, vaidosa… ou negar tudo isso. Não importa; desde que seja livre pra escolher.

Outra lição muito importante — e muito bonita — que a Disney tem se proposto a ensinar é que o tal amor verdadeiro pode vir de várias formas: no amor de irmã, de mãe e filha, ou o amor que muita gente não vê, como o de Malévola por Aurora. A sacada do beijo do amor verdadeiro no filme foi genial, convenhamos.

A minha geração foi a primeira a ver os filmes de forma clássica baseados em contos de fada perdendo a força. As mudanças atuais podem não parecer tão impactantes ou importantes… Mas são. Porque ainda há muitos resquícios de regras impostas, violentamente. Padrões, que há muitos anos ainda tentamos quebrar, até mesmo para nós mesmos. E não há lição mais importante, tanto para meninas quanto para meninos, do que mostrar que você pode ser quem você quiser e ser feliz desse jeito — mesmo sem um príncipe, mesmo sem casar, mesmo sendo diferente. E é permitido, sim, se reinventar, mudar, transformar, nascer de novo, ganhar novas asas.

E, acima de tudo: é permitido sentir.

 

Carolina Lancelloti
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