Divergente

Divergente: uma escolha pode te transformar.

A escritora Veronica Roth tem a minha idade: 25 anos. “Divergente” (editora Rocco), seu livro de estreia lançado em 2011, configura na lista dos mais vendidos do mesmo ano, quando autora não havia sequer concluído a licenciatura em escrita criativa pela Universidade Northwestern. As sequências da trilogia alcançaram o mesmo sucesso: “Insurgente”, lançado em 2012, e “Convergente”, no apagar das luzes de 2013.

Como é quase de praxe com todo sucesso literário voltado para o público adolescente/jovem adulto, a obra virou filme: ainda este mês estreia nos cinemas com Shailene Woodley, a nova queridinha de Hollywood, no papel de Beatrice (Tris) Prior, a heroína da série.

A trilogia segue a receita de “Jogos Vorazes”, de Suzanne Collins: Um futuro distópico (o que parece ser uma nova e até bem vinda tendência literária, depois da ode aos vampiros e ao sadomasoquismo), com uma heroína que é responsável por desencadear uma revolução e colocar abaixo o governo opressor e totalitário vigente. Algumas mortes no caminho, principalmente de jovens, são o preço a pagar pela liberdade. As semelhanças com os livros de Collins param por aí, embora eu aposte neles como provável inspiração de Veronica.

A Chicago futurista de Roth divide a sociedade em facções: Abnegação, Audácia, Erudição, Franqueza e Amizade. Cada uma delas valoriza uma qualidade na personalidade de cada cidadão em detrimento do defeito oposto, ao qual atribuem a culpa pelas guerras que afligiram o mundo — por exemplo, para a Abnegação, o egoísmo é culpado pelas mazelas da humanidade, que precisa de mais altruísmo; então aqueles que se identificam com o discurso da facção e possuem essa característica se “afiliam” a ela. As outras facções condenam outros defeitos: para a Audácia, é a covardia; para a Erudição, a ignorância; para a Franqueza, a duplicidade; para a Amizade, a agressividade. Essa determinação foi passada através das gerações como um caminho encontrado para a manutenção da paz.

Essa divisão acaba também determinando o papel de cada um na sociedade. A Abnegação é responsável pelo Governo, pois coloca a prioridade dos demais à frente das suas. A Audácia exerce um papel semelhante ao da polícia, cuidando da segurança. A Franqueza, por priorizar a verdade, atua como uma espécie de Justiça. A Erudição é como uma Universidade, reunindo interessados em desenvolver seus conhecimentos e se tornarem cientistas, médicos e professores. A Amizade é o núcleo dos agricultores, artistas e músicos. Há também aqueles que por algum motivo foram expulsos ou abandonaram seus grupos, tornando-se um “Sem-facção” — à margem da sociedade, executam as tarefas consideradas no contexto menos dignas, como limpeza e manutenção dos transportes, ou tornam-se pedintes.

É bom também ressaltar que a cidade é cercada: ninguém pode sair de seus limites. A opção por uma dessas facções é feita aos 16 anos, durante uma cerimônia de escolha. Para auxiliar os jovens é feito um teste que indica para qual das facções eles tem mais aptidão. É nesse momento que Beatrice Prior, protagonista e narradora, descobre ser Divergente: além da capacidade de enfrentar e superar os próprios medos, significa que ela se encaixaria em mais de uma facção — Abnegação, a mesma de seus pais, Audácia e Erudição. Ela é alertada sobre o perigo de ser Divergente: pessoas como ela estavam sendo perseguidas e mortas sob ordens da líder da Erudição, Jeanine Matthews (no filme, será interpretada por Kate Winslet). O motivo aparente da perseguição é, a princípio, não se encaixar em uma única definição — o imprevisível é difícil de ser controlado e, por isso, é temido.

Outros fatores vão surgindo ao longo da trama e revelando o que tem de mais em ser Divergente e o que está por trás de toda a estrutura das facções.
Tris opta pela Audácia. Entre cenas de ação e do romance entre Tris (apelido adotado por Beatrice) e Quatro (também apelido, de um veterano), a série levanta questões interessantes sobre sociedade, coragem, escolhas e autoconhecimento. Durante a iniciação na nova facção, Tris precisa superar não só os limites do próprio corpo, mas também seus piores medos, além de lidar com a distância e decepção de seus pais pela mudança de facção e o bullying que sofre de outros calouros por ser uma “careta” (como outras facções chamam aos que pertencem à Abnegação). O fato de ser Divergente e saber dos perigos que isso envolve a leva a situações em que é preciso coragem e discernimento para fazer escolhas que nem sempre se mostram as mais acertadas — e que podem ter consequências e marcas que ela levará por toda a vida.

O confronto constante de Tris com suas escolhas permite estabelecer um paralelo quase automático e óbvio com a realidade de muitos jovens (como também foi para muitos de nós) obrigados a tomar desde muito cedo decisões importantes que vão influenciar e determinar seu futuro. A resposta é direta, anunciada no subtítulo de cada um dos livros: “uma escolha pode te transformar”, “uma escolha pode te destruir”, “uma escolha vai te definir”.

Por mais que algumas circunstâncias sejam determinadas pelo meio — Tris não escolheu nascer em uma sociedade dividida por facções ou sequer na Abnegação –, algumas situações permitem que sejam feitas escolhas — como optar pela Audácia, pular de trens em movimento ou arriscar inconsequentemente a própria vida para salvar as pessoas que ama. Para cada uma dessas ações cabe uma reação. É o clássico, e não por isso menos oportuno, “faça suas escolhas e arque com — ou desfrute — as consequências”.

Já a divisão em facções aponta para a questão dos rótulos impostos pela sociedade: quem, afinal, é definido por uma única característica? Quem é totalmente verdadeiro ou altruísta? É uma falácia e uma covardia rotular quem quer que seja com base em uma única impressão, atitude ou pelas roupas que veste. É tentar resumir toda a complexidade humana, formada por personalidade, vivência, experiências, cultura e valores, em uma só palavra ou expressão tendenciosa. É como reduzir e limitar a capacidade intelectual e emocional do indivíduo, negando a ele toda sorte de possibilidades e escolhas diferentes das que lhes são impostas, seja por facção, preconceito, rótulo ou força.

Chega a ser cansativo discursar sobre isso em pleno ápice da Geração Y, conectada, informada, múltipla, mente aberta. Mas aí ficamos às voltas com a pesquisa do IPEA, segundo a qual 26% dos entrevistados concordavam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Mesmo com correção da porcentagem absurda informada anteriormente (de 65%), assusta saber que, para ¼ das pessoas, a roupa define a mulher e dá direito ao outro sobre seu corpo.

Voltando ao livro, é por isso que Tris se agarra com tanta força à ideia da divergência: é a liberdade de ser o que se é, independente do medo e das imposições sociais.

 

* Imagem: still do filme.

Cinthia Pascueto
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