Literatura, Resenhas

10 de fevereiro de 2014

Gone Girl | Garota Exemplar

O que aprender sobre relacionamentos com um casamento falido

Se ainda não ouviu falar do excelente “Garota Exemplar” (“Gone Girl”, no original), da talentosíssima escritora americana Gillian Flynn (editora Intrínseca), não imagina o que está perdendo. Considerado o melhor thriller psicológico de 2012 e com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, o livro chegou ao topo dos best sellers do New York Times.

A história começa com o desaparecimento de Amy, esposa de Nick Dunne, na manhã do seu 5º aniversário de casamento. Os capítulos alternam o ponto de vista de ambos, em um jogo de “ele disse” X “ela disse”: através do diário de Amy, acompanhamos a evolução de seu relacionamento desde o dia que se conheceram, e como o conto de fadas moderno vivido em NY acabou na cena de um crime às margens do Mississipi. Com a tensão de um casamento falido e dificuldades econômicas, Nick é o principal suspeito do sumiço da esposa. A mentira é uma constante na vida e na fala do casal, o que engana e leva o leitor a se posicionar a cada capítulo a favor de um dos personagens. Pairam ao longo das páginas diversas dúvidas: se Nick é culpado ou inocente, se Amy está viva ou não, se não foi o marido, quem poderia ter sido… a única certeza que o leitor tem, quando começa a se entranhar nos dramas sombrios desse casamento arruinado é: melhor optar pela bicicleta.

“Garota Exemplar” é quase um tratado de como NÃO se comportar em um relacionamento. É claro que não existem regras quando se trata do amor; mas, no fim das contas, podemos tirar grandes lições a partir das histórias que não deram certo, em especial com os erros desse casal contraditório e dissimulado que a gente amou/odiou/amou odiar. E não, não estou falando sobre como dar um sumiço em sua esposa ou tramar uma emboscada ardilosa para que seu marido seja condenado por um crime que não cometeu.

Em uma passagem do livro em que Amy reflete sobre como ela e Nick se conheceram, nem é preciso pensar muito para saber que começou errado: “Naquela noite na festa do Brooklyn, eu estava interpretando a garota que tem estilo, a garota que um homem como Nick quer: a Garota Legal.”

No “jogo da conquista” (expressão que já considero bastante pejorativa), não é raro que uma ou ambas as partes queiram se mostrar outras pessoas — ou o que consideram uma versão melhorada de si mesmos. Isso é ok… até a página 2. Com o tempo, a intimidade e a convivência revelam quem é quem de verdade. Não dá para manter a máscara da “Garota(o) Legal” para sempre.

Enfrentar o real e superar a fantasia da perfeição (rasa e insossa) é o que nos faz evoluir e amadurecer em um relacionamento: “Entregar-me a Nick, me sentir segura com Nick, ser feliz com Nick me fez perceber que havia uma Amy Real ali dentro, e ela era muito melhor, mais interessante, complexa e desafiadora do que a Amy Legal. Mesmo assim, Nick queria a Amy Legal. Você consegue imaginar, finalmente revelar seu verdadeiro eu ao seu cônjuge, à sua alma gêmea, e ele não gostar de você? E foi assim que o ódio começou”. Além do mais, a intolerância aos problemas do seu parceiro (a) pode deixa-lo, digamos, bastante chateado(a).

Se você resolver se casar/morar junto/namorar uma pessoa que aos seus olhos parece maravilhosa, incrível e sem defeitos, parabéns. Espero que esse brinde em carne e osso seja de fato tudo isso, ou você pode ter se envolvido com um desconhecido. Um completo estranho que está observando você de perto. “Querido marido, é agora que aproveito o momento para dizer que o conheço melhor do que você jamais poderia imaginar. Sei que algumas vezes você acha que desliza por este mundo sozinho, sem ser visto, sem ser percebido. Mas não acredite nisso nem por um segundo. Eu analisei você. Sei o que vai fazer antes que faça”, escreveu Amy para Nick. A dúvida que fica é quanto aos perigos de dividir a casa e a cama com alguém que te conhece tão bem – e, ao seu menor deslize, pode se tornar o seu pior inimigo.

Aproveite o choque de realidade do último parágrafo e já se prepare para outro: a ideia de amor incondicional é conto da carochinha. Na prática, amor exige dedicação, esforço e uma boa dose de abnegação. Amy foi certeira quando ponderou: “Dizem que o amor deve ser incondicional. Essa é a regra, todos acreditam. Mas se o amor não tem fronteiras, não tem limites, não tem condições, porque a pessoa deveria tentar fazer a coisa certa? Se eu sei que eu sou amada, não importa o que aconteça, onde está o desafio? (…) Isso me faz pensar que todos estão muito errados, que o amor deveria ter muitas condições. O amor deveria exigir que os dois parceiros dessem o melhor de si o tempo todo. Amor incondicional é um amor indisciplinado e, como todos vimos, amor indisciplinado é desastroso”.

Já disseram que o amor e o ódio são primos próximos. Não sei se existe esse parentesco, mas, se o ódio vier de onde já existiu o amor, pode ter certeza que ele vem ressentido e forte. E são experiências como essas que ajudam a determinar quem somos… para o bem ou para o mal.

Por fim, tenha a certeza de não pedir a mão de um(a) psicopata: “Eu estava fingindo, como muitas vezes fazia, fingindo ter uma personalidade. Não consigo evitar, foi o que sempre fiz: assim como algumas mulheres trocam de estilo regularmente, eu troco de personalidade. Qual persona parece boa, qual é cobiçada, qual está em voga? Acho que a maioria das pessoas faz isso, apenas não admite, ou se acomoda em uma persona porque é preguiçosa ou burra demais para mudar”.

Como é de se esperar de todo livro que faz sucesso, “Garota Exemplar” vai virar filme. Com direção de David Fincher, traz Ben Affleck e Rosamund Pike nos papéis principais. Coube à própria autora, Gillian Flynn, fazer a adaptação para as telas.

O longa, previsto para ser lançado em outubro nos Estados Unidos, foi destaque na edição de janeiro da revista Entertainment Weekly (veja aqui). A capa, fotografada por Fincher, traz os atores sobre uma mesa de autópsia, em uma releitura da icônica fotografia de John Lennon nu, abraçando Yoko Ono. A imagem original é de Annie Leibovitz, feita para a Rolling Stone em 8 de dezembro de 1980, apenas horas antes do assassinato de Lennon. Na mesma publicação, Flynn afirma que alterou diversos acontecimentos da terceira parte do livro na adaptação. Segundo a matéria, isso deixou Affleck completamente chocado – e a ansiedade aqui é grande para descobrir como será esse novo final.

“Porque ninguém pode estar tão apaixonado quanto estávamos e isso não invadir sua medula óssea. Nosso tipo de amor pode apresentar remissão, mas está sempre esperando para retornar. Como o câncer mais doce do mundo.” (dica de excerto do livro sugerida pela querida Fabiane Secches; Profunda e trágica, a fala é da personagem Amy Elliot Dunne).

 

Nota da Confeitaria: recomendamos a leitura da entrevista de Gillian Flynn para a Entertainment Weekly (em inglês).

Cinthia Pascueto
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