Textos

16 de dezembro de 2015

Ilustração:
Thiago Thomé

Comida e Ideologia

Meus pais são vegetarianos desde que me conheço por gente, o que é bastante peculiar, considerando que sou de Porto Alegre e lá a cultura da carne e do machão reina soberana. Não na minha casa; não na casa dos meus pais.

Eu não era estritamente vegetariana, mas também não fazia muita questão de carne. Foi quando mudei pra São Paulo, há 15 anos, que parei de me importar com isso — e com muitas outras coisas. Eu só queria sobreviver. Comer ou não carne, acompanhar ou não política, nada disso estava na minha lista de assuntos. Ai de mim, ainda não sabia que existir é um ato político, que tudo o que fazemos tem a ver com o que somos. Parei de comer carne algumas vezes. Voltei. Parei. Às vezes sentia uma repulsa enorme, outras vezes vinha um desejo que eu não queria controlar. E foi assim por algum tempo. Ia, voltava. Ia, bebia, comia uma coxinha. Passava semanas comendo apenas proteínas vegetais e desistia. Pesquisava alguns grupos veganos buscando receitas com alternativas a queijos e leite (sou alérgica) e desanimava.

Não gosto nem um pouco do discurso em prol da escravidão das “fêmeas”, comparando o que animais passam com o que mulheres negras passaram há tão pouco tempo. Não tem essa de “especismo”; esse discurso é racista e acho uma baita queimação de filme. Aliás, torci meu nariz pro veganismo algumas vezes por causa de discursos elitistas e racistas até perceber que o veganismo não tinha nada com aquilo, que o problema era, como sempre, as pessoas. Ai, as pessoas.

Mas era o meu caminho. Eu fui parando, fui parando. Ficou ideologicamente insustentável quando eu vi o documentário Cowspiracy, que fala sobre como a indústria da carne está destruindo o mundo e ninguém faz nada pra parar. Destruindo o mundo. Consumindo quantidades monstruosas de água, acabando com o solo, com o ar e até com o mar. Não é exagero. Não é coisa de ativista delirante. É a real. E eu não queria fazer parte daquilo.

Claro que o sofrimento animal também toca meu coração. Tenho gatos, muitos gatos, não tantos gatos quanto gostaria de ter, e me dói, sim, pensar no sofrimento dos outros bichinhos. Não quero comer algo que já andou e respirou. É muito fácil não se importar nisso quando não se pensa que aquela carne estava em um animal que foi sangrado vivo pra não escurecer seu bife. A bandeja não muge, não olha na sua cara, não mama, não tem mãe, não tem sentimentos. Mas tinha, viu? E passou muito medo e muito horror até chegar naquela prateleira, naquele gancho, naquele açougue, naquele mercado.

Veja bem, estar vivo é entrar em contradição. Eu me identifico com o candomblé, é a primeira vez que tenho alguma fé em toda a minha vida. O que eu não respeito é uma indústria horrenda que movimenta milhões e está acabando com o planeta.

Não estou aqui para fazer a catequese do veganismo. Só queria dividir meu processo, que foi longo, e dizer que poucas vezes na vida me senti tão plena com meu corpo, com a comidinha que faço, com os temperinhos que planto. Há algo de mágico em ter uma hortinha e temperinhos, em descobrir novas receitas, novas combinações, novos sabores; há algo de mágico em dividir, também. Dividir com outros veganos, outras pessoas que se importam, e outras pessoas dispostas a repensar seus hábitos alimentares.

A gente não precisa de carne pra viver. É uma escolha, como tudo na vida. A minha foi comer sem destruir o mundo e sem gerar sofrimento.

Clara Averbuck
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