Textos

24 de setembro de 2013

Fracasso

Não consegui mais dormir; virei e revirei naquela caminha de solteiro, suei toda a minha camisola de bolinhas brancas no esforço de dormir, dormir, dormir de novo, eu precisava dormir, aquilo não era hora, seis da manhã não é hora. Não consegui. Gostaria de levantar, me espreguiçar, vestir qualquer coisa, colocar meus óculos de sol-com-grau e tomar um café na padaria. Isso se eu estivesse na minha casa, o que não faz sentido, pois se eu estivesse na minha casa e na minha cama, essa insônia toda não existiria e eu estaria agora dormindo o sono dos justos. Não posso levantar e tomar um café na padaria porque estou em um chalé no mato. Um chalé que aluguei para escrever, porque o isolamento é o melhor amigo do escritor. E vos digo agora, amigos: isso é uma mentira. Fugir de São Paulo para o interior de Minas e escrever, e terminar esse maldito livro entalado há uns seis anos? Pfff. Eu agora daria um trago no cigarro e faria pfff com a mão, mas não fumo mais. E não posso tomar café na padaria porque não há padarias aqui e também porque chove há duas semanas e eu não trouxe sapatos adequados para andar no capim molhado, então estou aqui escrevendo sobre acordar e não escrever e não poder dar uma volta.

Eu devia ter imaginado que isso de chalé não ia funcionar. Não sou dessas pessoas que precisam de isolamento. Devia ter alugado um quartinho no Rio de Janeiro, um quartinho no Lido, em Copacabana, um quartinho com móveis pesados de lado para o mar, em um prédio com elevador de porta pantográfica com os números meio apagados, uns vizinhos velhos, uns cachaceiros decadentes, umas putas na esquina, uns turistas passando, ah, isso sim seria um cenário perfeito. Lá eu também não teria de lidar com as cigarras, como é que ninguém me avisou das malditas cigarras que não calam? Como é que alguém pode reclamar do barulho dos carros do centro da cidade grande quando tudo que há neste mato é um som enloquecedor de cigarras? Vocês sugerem tudo errado. Mas o chalé está pago por um mês, o dono não vai me devolver o dinheiro e eu preciso terminar esse livro antes que o meu editor me mande devolver todo aquele adiantamento (cuja metade foi gasta, risíssimos, para pagar o chalé). Esse romantismo, sabe, sobre escrever, é isso aí que fode o meu esquema todo. Todos os escritores, quando escrevem sobre escrever, estão falando sobre os seus processos, um falando que quando você quer, escreve em qualquer lugar, outro voltando do chalé no mato (…) pra cidade e explodindo tudo no caminho, o outro justamente se enfiando nas montanhas… Nada disso necessariamente funciona para os outros.

Eu não sei mais o que funciona pra mim. Funcionava estar no topo da cidade absolutamente sozinha, sem dinheiro, sem amor e sem internet no 13o
andar. Ah, como as coisas fluíam naquela época. Hoje não, hoje tudo é difícil, hoje a vida quotidiana e tributável não permite o romantismo que me carregava para frente. Acho que isso e o fato de eu não possuir mais um coração e de ter virado uma criatura que exala amargor, bom, isso provavelmente acabou com a escritora que eu era e me transformou… Nisso. Que eu não sei o que é. Uma pessoa que escreve aqui e ali, escreve humor, escreve de carros e perfumes, escreve de cervejas e uísques e vitaminas, escreve uns poeminhas, mas cadê a consistência, senhora? Cadê? Cadê livro, cadê literatura? É, a vida é dura, ainda mais depois que aquele sujeito do cinema comprou meu primeiro livro, transformou em uma outra coisa capenga dele e usou o meu nome para se promover. Não tem uma frase minha inteira naquela porra. Mas todos acham que leram o tal livro por isso. Assim não dá. Mas foi assim que aconteceu. Aconteceram também os casamentos fracassados com os homens controladores e abusivos, isso também atrapalhou bastante. E o que sobrou? Eu, sentada no mato, ouvindo umas cigarras sem chance de terminar o que comecei.
Melhor começar de novo.
Melhor começar outro.

Vamos lá, vamos então imaginar o barulho da máquina de escrever, rrrrrrrc (arrancando a folha) zup-zup-zup-zup-zup (nova folha branca), tlc-tcl-tcl-tlc (espaços até o título)

Memórias de uma escritora sem memória
Memórias de uma cabeça sem coração
Memórias de um coração sem cabeça

Fosse mesmo uma máquina de escrever, arrancaria a folha fora e jogaria para trás.

Preciso ir embora deste mato e voltar para casa. Sei admitir quando um plano fracassa. Se tem um assunto que domino nessa vida, esse assunto definitivamente é o fracasso.

Levantei e fui empacotar as coisas. Lá no meu caos eu tento de novo. E de novo. Até que o fracasso seja perfeito e eu esteja exaurida e sem viço. De novo.
* Ilustração: Matias Lucena.

Clara Averbuck
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