Textos

22 de outubro de 2014

Toureando o Diabo

Nota da Confeitaria: este texto é um trecho inédito de “Toureando o Diabo”, novo romance de Clara Averbuck que será lançado em breve.

* * *

Da primeira vez que fomos transar eu já soube que ele assistia pornô demais.
Ele não soube detectar nenhum sinal do meu corpo, nenhum sinal da minha boca, nenhum sinal de nada de mim. Não tinha clima, não tinha eletricidade, não tinha nada além das minhas piadas e dele jurando que íamos nos dar muito bem.

Aquilo nunca ia dar certo.

Nem por um momento. Nem por uma trepada.

Então eu continuei tentando, porque, como já sabemos, eu adoro tudo que é fadado ao fracasso. O pau dele era tão grande que não cabia em lugar algum. Ele exibia aquela tromba com o orgulho que um pai exibe um bebê e eu não sabia como começar a explicar que aquilo não era bom. Não cabia na boca, não cabia no cu, machucava o fundo da buceta. Não. Fosse só o pau o problema, não seria problema; o problema é que não tínhamos química nenhuma. Eu sabia disso, mas ele parecia não saber. Era inacreditável. Ele achava que sexo era essa merda mecânica mesmo, essa merda de pornô mainstream mete-mete-mete-vira-mete-goza. Ai de mim.

Por algum motivo que jamais saberei explicar, eu quis estar perto daquele homem. Devia ser porque ele era um dos piores e também porque era “louco por mim”. Eu ainda não tinha aprendido que “sou louco por você” significa apenas “sou louco” e que devemos fugir desses tipos. Ou tinha e estava apenas carente e querendo que alguém enchesse minha bola. Quem nunca, né, ficou com alguém só por estar se sentindo mal consigo e precisando de afago? Eu nunca. Eu: primeira vez.

Não demorou para quebrarmos o primeiro pau. Ele era um machista babaca, afinal, e apesar de alguns bons momentos quando bebíamos e usávamos droguinhas e falávamos pelos cotovelos sobre livros, filmes e música, eu não ia aguentar muito tempo o teatrinho de ser mulherzinha de alguém, menos ainda de alguém com uma visão de mundo tão estreita.

Ele não entendia nada. Nada de relações humanas, nada de cumplicidade, nada de amor, de companheirismo e certamente nada de sexualidade. Não “sexo”. Sexo qualquer cusco abandonado faz. Como já mencionei anteriormente, esse rapaz aparentemente tinha aprendido tudo com a indústria do pornô e não fazia ideia de como lidar com o corpo de uma mulher, apesar de se gabar de ter tido muitas, de que todas voltavam e de que ele era um irreversível garanhão que só sossegaria quando pudesse ter três namoradas ao mesmo tempo, que só assim, que mulher nenhuma, que ele era foda.

Não deu nem dois meses e ele reivindicava minha posse.

– Quero que você seja minha, ele dizia, acreditando estar abafando no romance.

Eu não queria namorar; só queria que as coisas fossem boas, só queria que as coisas fossem boas e as pessoas livres, mas ele, além de não entender nada de relações humanas, cumplicidade, amor, companheirismo ou sexualidade também não entendia nada de liberdade.

Ele queria ser meu dono.

– Mas pra que isso, não está bom assim?, eu perguntava tentando dissuadi-lo daquela ideia sem sentido. – Você pega quem quer, eu pego quem quiser e ficamos todos de boa. Eu nem estou pegando ninguém mesmo, mas você fique à vontade, viu?
– Logo mais vai ter outra no seu lugar, outra neste sofá, outra nessa cama, e nos veremos menos e menos, e mimimi blablabla bafafá, ele dizia em tom grave, como se aquilo fosse realmente importante.

Eu não ligava.
Ele se emputecia.

– Quem ama, cuida!, bradava ele a verdade universal do relacionamento medíocre.

Ele queria que eu fosse “boazinha”. Boazinha significava ser dócil, calma, obediente, nunca protestar e estar pronta para fazer sexo quando *ele* quisesse. Tão típico. Por que ele estava com uma mina como eu, jamais compreenderei, assim como jamais compreenderei, em hum milhão de anos, o que vi naquele cara.

A gente não tinha nada.

O sexo, que nunca foi bom, só piorava. Em seu papinho manso abusivo me fez acreditar que eu devia isso a ele e eu me sentia obrigada, eu, logo eu, eu que amo sexo, que sempre amei, fingi que gozei pela primeira vez na vida só pra me livrar daquilo que havia virado a obrigação mais triste da minha existência. A obrigação que ele me fazia sentir de gostar de dar quando *ele* quisesse.
Aí, se eu não queria, eu era o que?

Frígida.

FRÍGIDA!

Frígida e tinha problemas com sexo.

Meu problema era com ele. E o sexo estava de mal comigo por causa daquele pulha. Eu continuava naquilo e morria de saudade do pulha anterior, gozava sozinha pensando no pulha anterior, com quem tinha uma química maravilhosa e passara noite de sexo inesquecíveis.

Quanto mais brigávamos, menos eu queria saber dele. Mas ficava. Quanto mais eu ficava, menos sexo eu queria.
Duas coisas que amo mas quando faço obrigada fica uma merda: sexo e cozinhar.

Nem casada eu estava, mas reproduzia direitinho o relacionamento mais medíocre e passei meu aniversário descascando batatas naquela apartamento mofado enquanto ele trabalhava no computador.

Eu, Camila Chirivino,
eu, uma mulher independente,
eu, que não admito macho mandando na minha vida,
me vi de repente em um relacionamentozinho tão escroto que a única coisa que eu queria era ter paz. Mesmo que eu tivesse que comprar essa paz com meu silêncio diante das merdas que ele falava. Todas as merdas. Quase tudo era merda.

Funcionou por três dias.

No quarto, quando me chamou de frígida pela milésima vez, cuspi na cara dele, peguei as minhas coisas e me retirei como uma lady depois de tentar acertá-lo com o ventilador.

– SUA MOCREIA! VOLTE AQUI!

Não voltei.

Voltei. Fui buscar minhas coisas. Ele quis conversar.

Por quê? Por quê? Por quê?

Ele disse que eu tinha que mudar TUDO. E escrever uma carta de perdão.

MUDAR TUDO.

– Como, tudo?

– Tudo. Todo o seu jeito. Tudo.

– Mas aí eu não vou mais ser eu. Não é de mim que você gosta?

– Sim. Não. Gosto de você, odeio o se jeito. Você quer ser “protagonista” (fez aspas com as mãos) de tudo.

– Mas eu sou. Eu sou protagonista da minha vida.

– Mas não é assim!

– É sim.

– Você tem que ser legal, querida, não pode ter problema com sexo, não pode, não pode, tem que, não pode!

– Olha só, você não manda em mim.

– Mando sim! Mando sim!

Gargalhei e fui embora pra nunca mais.

 

 

* Imagem: rascunho da ilustração de Eva Uviedo que estará no livro.

Clara Averbuck
Leia mais textos de Clara aqui.