Textos

05 de setembro de 2013

Trigésimo-sétimo nunca mais

Parecia um maluco, a camisa amarrotada, os olhos vermelhos, falando impropérios com a certeza dos que atravessaram a portinhola do delírio e não conseguem mais voltar. Gesticulava, mexia nas coisas, balançava a cabeça falando que sabia de tudo, como se eu fosse uma criminosa.

Mexia nas minhas gavetas, olhava os meus dentes, cheirava minhas calcinhas no desespero de encontrar uma prova que não existia.

VOCÊ NÃO ME AMA, ele gritava arregalado como amélia abandonada enquanto balançava o pau.

AMO SIM!

NÃO AMA!

Lembrei da minha avó com as couves-de-bruxelas “mas vó, eu não gosto” “GOSTA SIM”.

AMO SIM!

NÃO AMA!

Mas puta que pariu.

Minha avó também conseguiu.

De tanto repetir

que eu gostava de couve

eu gostei.

E você

de tanto repetir que eu não amava

não queria

não nada

eu desamei e não quero mesmo.

Então vamos estragar tudo;

vamos rolar na sala,

eu vou tentar te acertar com o ventilador e esquecer metade das minhas roupas no varal,

eu vou sorrir aliviada na rua porque não suporto na minha boca palavra que não tenha saído da minha cabeça,

e você vai pra puta que o pariu, obrigada.

Eu não vou me sentir culpada por não ser o que você diz que é normal. Eu não vou ser ordinária. Eu não vou cair nessa. Eu não vou me sentir inadequada. Você NÃO VAI me fazer sentir inadequada. Eu NÃO VOU aceitar essas bobagens medíocres que infestam a sua cabeça e NÃO VOU deixar de fazer as minhas coisas do meu jeito por que VOCÊ acha errado. Eu NÃO VOU cair nessa. Eu NÃO VOU deixar de ser eu. Eu NÃO VOU gozar como você acha que eu devo. Eu não vou agir como você acha que eu devo. Eu não DEVO nada. Eu não vou deixar de ser eu. Eu não vou ser controlada. Eu não vou ser chantageada. Eu não vou me explicar. Eu não vou explicar nada. Eu não vou mais ficar com você.

A vida se torna um lugar insuportável quando eu preciso me explicar.

Quer saber?

eu tentei.

(NÃO TENTOU, a cabeça dele gritou agora)

TENTEI SIM!

Há um limite para as palavras colocadas na minha boca, antes que eu exploda.

Eu tentei.

Mas ninguém se entendeu e acabou, o trigésimo-sétimo fim do último nunca mais.

Ad infinitum, ad eternum, dementia, dementia, dementia.

 

* Imagem: adaptação de pintura de Aleksandra Waliszewska.

Clara Averbuck
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