Autores convidados, Textos
Tatiana Cavalcanti
07 de agosto de 2015

365 dias sem você

Abri o olho sentindo o peso do mundo no peito me impedindo de levantar da cama.

São 365 dias daquela terça-feira que dividiu minha vida em duas partes. Com você e sem você, com graça e sem graça, com muita emoção e com pouca emoção. Com você era brisa de praia, fácil de suportar. Sem você é calor senegalês, a gente suporta, a gente se adapta, mas nunca que é confortável, sempre incomoda.

Sou capaz de descrever até as ruguinhas que se formaram no canto do seu olho. Era cansaço, era desistência, era fraqueza. Sua e minha, porque a gente sabia que não podia fazer mais nada, a não ser dizer “tchau” um para o outro, torcendo e acreditando que a gente um dia vai se abraçar e que você vai beijar minha testa com aquele biquinho gostoso.

365 dias do dia em que você, já quase sem consciência, abriu o olho para me ver pela última vez e que eu chorei muito segurando seus óculos e seus documentos. Aquilo era tudo de você que cabia na minha mão, o mais perto possível de mim, o mais dentro possível do meu coração. O último olhar foi de quem já não estava ali, apesar do coração insistir em ser forte e de querer com tanto amor esperar pela chegada do Thiago. Um olhar que a gente sabia que era o último, mas eu só queria que a sua dor passasse, para viver a minha sem você presenciar.

Eu me lembro das psicólogas chegando para conversar. “Você está bem?”, “Você tem irmãos, onde estão eles?” Eu respondia o que dava e o que não saía, a Tia Roseli dizia por mim. Porque ela sempre sabe tudo o que dizer, o que fazer e o que calar.

12 meses, pai. 12 meses que o Thiago chegou do Chile a tempo, para que a gente pudesse, os três pela última vez, ficar no mesmo lugar, mesmo que fosse um quarto de hospital. 12 meses que Thiago olhou pra mim 5 minutos depois de rezar abraçado a mim e docemente disse:

“Vai, Tati. Chega para você”.

E eu peguei na sua mão, beijei e sussurrei que só podia ser você o meu pai.

Este foi o primeiro dia dos namorados que não recebi sua flor com cartão. Aliás, foi o primeiro dia dos namorados que eu fui comprar a flor mais linda que encontrei para deixar na sua casinha.

Agora a dor é calma, dói devagar, mas dói todo o dia um pouco. A angústia é nova, permeada por dúvidas com o gosto amargo da saudade que não se resolve. O que você ia achar do Matheus ir pra capoeira? Você estaria incrivelmente feliz com meus roteiros? Você ainda me chamaria de bicho?

Outro dia olhamos o álbum de casamento, as fotos antigas, os recortes de jornais onde vocês estavam. Tive uma imensa saudade de você e das coisas que a gente não viveu junto. Uma saudade estranha que me derrubou na cama como se tivesse sido ontem. Às vezes nem parece mesmo. A dor é tão profunda nos dia de chuva, que é como se a vida tivesse pausado naquela semana para a gente nunca mais se perder.

365 dias, pai. Mas a verdade é que isso pouco importa, porque quando é amor de verdade nunca acaba. E nunca é o que resta. É sempre o que há de melhor.

 

* Imagem: cena do curta-metragem Father and Daughter, premiada animação de Michael Dudok de Wit

Tatiana Cavalcanti é escritora, roteirista e sócia da Alma, Conteúdo Criativo. Autora do Caóticos de uma Mulher Crônica, mãe do Matheus e da Bia, apaixonada por gatos e doces. Saiba mais aqui.