Textos
Autor Convidado
16 de setembro de 2013

A Lentidão

Esse pequeno livro é realmente muito interessante. Kundera começa a narrativa, em primeira pessoa, através da voz masculina de um casal que está a caminho de suas férias num castelo na França. Este castelo é supostamente – ou, ao menos, é isso o que o narrador nos faz entender – o mesmo castelo onde Madame de Tourvel, do romance “Ligações Perigosas”, de Chordelos de Laclos, teve suas aventuras adulteras e anseios libertinos do século XVIII.

No caminho, o narrador faz especulações metafísicas sobre a velocidade – estamos na década de 70 – e tudo o que se perdeu com os anseios tecnológicos e a pressa para alcançar o êxtase e a felicidade. Ele faz uma bela comparação entre os prazeres da lentidão versus os prazeres da velocidade, falando sobre o culto ao orgasmo, que reduz o coito a um obstáculo a ser ultrapassado o mais rápido possível e sobre a eficácia em contraposição à ociosidade criativa e sedutora da lentidão.

O decorrer do livro sobrepõe narrativas, onde o tempo se entrelaça, numa dança lenta e libidinosa, mesclando épocas e personagens que se alteram como peças num tabuleiro de xadrez, guiados pelo hedonismo e a dificuldade de apreensão do real.

Ele também fala sobre uma “equação bem conhecida do manual da matemática existencial”: o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; e o grau da velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.

Isso me fez pensar que quando sentimos felicidade num determinado momento, queremos guardá-lo na memória e para tanto acabamos tornando-o mais lento; e fazemos exatamente o inverso para momentos desagradáveis ou de sofrimento.

Adorei o livro e a forma como a narrativa é contada. Gostei muito das especulações sobre “ser eleito” e sobre como manipulamos o momento, nos tornando “dançarinos”, para obter o reconhecimento.

Kundera tem toda razão: “Quando as coisas acontecem rápido demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.”

 

* Nota da Confeitaria: leia um trecho do livro aqui.

Imagem: foto de Milan Kundera, via Posfácio.

Autor Convidado
Autor(a) convidado(a) da Confeitaria convidado(a).