Autores convidados, Literatura, Resenhas
Michelle Henriques e Juliana Leuenroth
27 de maio de 2015

A Mão Esquerda da Escuridão

“Previsões são feitas por profetas (de graça); por videntes (que geralmente cobram um honorário e, portanto, são mais respeitados em sua época do que os profetas); e por futurólogos (assalariados). Previsões são trabalho de profetas, videntes e futurólogos. Não são o trabalho de romancistas.O trabalho do romancista é mentir.” 

Em uma das introduções mais geniais já escritas, Ursula K. Le Guin nos dá pistas da complexidade de A Mão Esquerda da Escuridão. É preciso passar pelas primeiras páginas da obra e tentar relevar todo o estranhamento que elas causam. Em alguns momentos parece que a autora está testando você. Você está preparado para essa história/jornada? E será uma jornada longa, por vezes árida, repleta de intrigas e questionamentos.

Genly Ai é o Enviado da Terra para o planeta Gethen (também conhecido como Inverno). Ele representa o Ekumen, um associação interplanetária para o comércio e o intercâmbio de ideias e tecnologias. Além do estranhamento normal entre povos, acrescenta-se as intrigas políticas que a presença do Enviado causam.

Narrado como um relatório que Genly Ai tem de fazer ao Ekumen, vemos as suas dificuldades de diálogo com os gethenianos e todas as conspirações para ajudá-lo ou impedi-lo de chegar ao seu objetivo. A ambiguidade está por todo o livro, seja pelas representações políticas ou pelos discursos. As intrigas políticas lembram, guardadas as devidas proporções, um episódio de House of Cards. E se essa comparação fosse possível, o Frank Underwood getheniano seria Estraven.

Estraven é um personagem-chave para entender o livro. É quem sofre mais reviravoltas e opera grandes mudanças na forma que Genly Ai vê o planeta Inverno. Começa como assessor/conselheiro do rei de Karhide. Simpatiza com as ideias do Enviado e tenta convencer o rei de que o acordo comercial é um bom negócio. É vítima de uma conspiração e expatriado. Deve fugir o quanto antes para Orgoreyn (país vizinho e que está em constante conflito com Karhide) para não ser morto. Lá acaba vivendo próximo aos burocratas que governam o país, numa espécie de conselho, e também articula para que a aliança com Genly Ai seja feita.

Para além de toda a sua importância política na história, Estraven conduz Genly Ai por uma importante jornada tanto física (de atravessar um deserto gelado), quanto pessoal, para compreender melhor os gethenianos e finalmente ter empatia por esse povo, que antes era apenas objeto de curiosidade e trabalho.

Os habitantes do planeta Inverno não possuem gênero. De acordo com o Kemmer (que pode ser comparado ao cio dos mamíferos), eles assumem um gênero específico para fins de procriação. Fora desse período, a sociedade é considerada assexuada. Assim, imaginamos uma sociedade em que não há distinção entre homem-provedor e mulher-mãe. Os papéis são igualmente divididos. Quando não há essa distinção, não há problemas relacionados ao sexo, como o estupro.

A sociedade getheniana não se constitui tradicionalmente em família. As relações sexuais têm o objetivo prático de reprodução. Os casais que se formam durante o kemmer normalmente se separam e os frutos desta relação pertencem à sociedade. Há exceções à regra, e alguns casais chegam a jurar kemmering, uma espécie de fidelidade. Fica muito claro para os gethenianos que os conceitos de amor e paixão não existem e o tempo todo Genly Ai é julgado como “pervertido”, pois está em constante kemmer.

“Considere: qualquer um pode trabalhar em qualquer coisa. Parece muito simples, mas os efeitos psicológicos são incalculáveis. O fato de toda a população, entre dezessete e trinta e cinco anos de idade, estar sujeita a ficar (como Nim definiu) “amarrada à gravidez” sugere que ninguém aqui fica completamente “amarrado” como, provavelmente, ficam as mulheres em outros lugares – psicológica ou fisicamente. Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitário; todos têm o mesmo risco a correr ou a mesma escolha a fazer. Portanto, ninguém aqui é tão completamente livre quanto um macho livre, em qualquer outro lugar.

Considere: uma criança não tem nenhum relacionamento psicossexual com sua mãe ou pai. O mito de Édipo é inexistente em Inverno.

Considere: não existe sexo sem consentimento, não existe estupro. Como ocorre com todos os mamíferos, exceto o homem, o coito só pode ser realizado por convite e consentimento mútuo; do contrário, não é possível. A sedução certamente é possível, mas deve ser tremendamente oportuna.

Considere: não existe nenhuma divisão da humanidade em metades forte e fraca, protetora/protegida, dominante/submissa, dona/escrava, ativa/passiva. Na verdade, pode-se verificar que toda a tendência ao dualismo que permeia o pensamento humano é muito reduzida, ou alterada, aqui em Inverno.”

Outro conceito que não existe na sociedade é o da guerra — não há nenhuma palavra getheniana que represente isso. Sem o sexo e a violência institucionalizada, o maior inimigo do habitante de Inverno é o clima, nunca o outro.

Ficção científica geralmente é associada a escritores homens, mas Ursula K. Le Guin se destaca no meio não por ser mulher, mas, sim, por trazer questionamentos a respeito de gênero e sexualidade dentro de um contexto aparentemente improvável. A Mão Esquerda da Escuridão foi publicado em 1969 e recebeu dois importantes prêmios da área, o Hugo e o Nébula.

 

* Imagem: Ursula K. Le Guin (The Guardian)

Michelle Henriques e Juliana Leuenroth são moderadoras do clube de leitura #leiamulheres realizado na livraria Blooks.